terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Sob o sol da Toscana

Com o título acima, foi publicado há uns anos um livro e baseado nele foi feito depois um filme. Ambos, livro e filme, tiveram muito sucesso. O ambiente decorre no campo e em povoações da Toscana, região central de Itália. É uma região riquíssima em arte e história, com destaque para Florença, sem esquecer outras cidades periféricas, como Pisa, Siena, Arezzo ou Lucca.

A Toscana e Florença seduziram-me há muitos anos. Não deixo de lá ir, sempre que posso, nas minhas diversas visitas a Itália. Os sentimentos de voltar, em Agosto, foram um pouco contraditórios. Estava na cidade e região que mais gostava, mas o calor e as multidões de turistas impediram-me de gozar com a calma que pretendia todas aquelas belezas.
Florença é um destino imprescindível para quem gosta da arte do Renascimento. Lá se concentram enormes conjuntos de monumentos, esculturas ou pinturas dessa época. Fruto do apoio das prósperas classes dirigentes ou nobres florentinas, surgiram soberbos palácios, magníficas igrejas, pinturas e esculturas notáveis.
A Ponte Vecchio, a Piazza della Signoria com o Palazzo Vecchio, os Ufizzi ou a Loggia dei Lanzi são o supra-sumo dos locais procurados pelos turistas. Junta-se-lhes a esplendorosa catedral de Santa Maria del Fiore, com uma fachada riquíssima, uma cúpula (de Bruneleschi) arrojadíssima e ainda uma esguia torre sineira desenhada por Giotto. Em frente fica o baptistério com umas portas em bronze, ricamente decoradas, e que levaram Miguel Ângelo a apelidá-las de Portas do Paraíso.
Procurámos diversificar as nossas visitas. Começámos pela igreja franciscana de Santa Croce, um autêntico delírio de pintura medieval e renascentista. Também aqui fica o principal panteão de ilustres toscanos ou outros que se notabilizaram nesta região. Estão lá sepultados Miguel Ângelo (lindíssimo túmulo), Galileu, Maquiavel, Rossini, Marconi, etc. Dante tem aqui o túmulo, mas os seus restos mortais estão no centro de Ravenna. Além do túmulo de Miguel Ângelo, impressionou-nos muito o políptico da Coroação da Virgem, atribuído a Giotto e a seu discípulo Taddeo Gaddi, o crucifixo em madeira de Cimabue e as pinturas da capela Peruzzi, da autoria de Giotto, representando a vida de São João Baptista e São João Evangelista. Também de Giotto são as soberbas pinturas murais da capela Bardi sobre a vida de São Francisco.
Por causa também da pintura vale a pena visitar Santa Maria Novella, a principal igreja dos dominicanos em Florença. As suas pinturas rivalizam em beleza com as de Santa Croce, como os dominicanos rivalizavam com os franciscanos. Há impressionantes obras de Ghirlandaio e Filippo Lippi. Destaque para o simbólico crucifixo em madeira de Giotto e os belos baixo-relevos do púlpito. Sem menosprezar a fachada magnífica da catedral, a sua arrojada cúpula ou a elegante torre sineira, temos aqui dois exemplos com que a catedral de Santa Maria del Fiore não pode rivalizar, pois tem um interior despido e sem interesse.
Mas há mais em Florença quando se fala em interiores de igrejas. A de Ognissanti é de entrada gratuita e tem no interior um conjunto de pinturas de interesse incontestável. Nesta igreja está sepultado o descobridor da América, Américo Vespucci, que aparece representado em jovem, debaixo do manto da Senhora da Misericórdia, na capela da família Vespucci. Mas o mais impressionante nesta igreja é o refeitório no convento anexo. Na parede frontal está pintada uma extraordinária representação da Última Ceia, obra de Ghirlandaio. Nunca tive ocasião de admirar no local (arredores de Milão) o original de Leonardo da Vinci sobre a Última Ceia.
Mas pelo que conheço das reproduções, esta obra de Ghirlandaio parece-me exceder em muito a obra do mestre Leonardo pela expressividade, pelos simbolismos, pelas pequenas histórias que conta. Ficámos deslumbrados.

Uma visita aos Ufizzi vale sempre a pena, quanto mais não seja para ver alguns dos maiores símbolos da pintura renascentista, como o Nascimento de Vénus e Alegoria da Primavera de Botticelli ou a Vénus de Urbino e a Senhora do Pintassilgo de Ticiano.
Pouco procurado é o museu da antiga cadeia, o Bargello. Tem um conjunto interessantíssimo de esculturas e o próprio edifício medieval e renascentista merece visita.
Ao fim do dia os turistas procuram afincadamente o Piazzale Michelangelo, numa colina sobranceira à cidade. Creio que o panorama junto à igreja de San Miniato al Monte, uns metros mais acima, é bem mais interessante, como interessante é também esta igreja do padroeiro dos vendedores de lã. Mas creio que a vista mais abrangente e mais bonita é no forte Belvedere, contíguo aos deslumbrantes jardins do Palácio Pitti.
Visitámos ainda Arezzo, um dos centros de ourivesaria mais importantes de Itália. A própria cidade reflecte essa prosperidade. A basílica de Santa Maria della Pieve é assombrosamente bela, com inúmeros e expressivos baixo-relevos ou pinturas. E o largo onde se situa o Palazzo Comunale, Piazza Grande, merece uma admiração atenta pelo seu conjunto monumental. As ruas desta cidade foram palco das cenas do filme A Vida É Bela. Perto de Arezzo fica Cortona. É uma cidade de colina, como outras de origem etrusca. A cidade tem muitos palácios e igrejas de interesse e sente-se um charme intenso, longe da multidão de turistas. Cortona é muralhada e tem na Piazza della Repubblica um vistoso Palazzo Comunale. Desse largo parte a Rua Nazionale, conhecida como Rugapiana em dialecto local, famosa por ser a única rua plana no meio de todas as outras que descem ou sobem pelas encostas da colina.

Siena é um dos destinos toscanos mais procurados nos meses de Julho e Agosto. A razão principal é a disputa do Palio, uma corrida tradicional de cavalos em que todos se vestem à moda antiga. A corrida tem lugar na ovalada Piazza del Campo, a principal praça da cidade. Mas as movimentações dos grupos de apoio de cada bairro, os cânticos, os incitamentos, as cores são coisas de difícil descrição. A Piazza del Campo é um espaço harmonioso onde se destaca o elegante edifício municipal em tijolo vermelho. No meio da praça está outro belo monumento em mármore branco — a fonte Gaia, dedicada à deusa da Terra. O palácio municipal é visitável e tem várias salas com interessantes pinturas de diferentes épocas. Outro monumento a não perder em Siena é a catedral, um edifício enorme em mármore branco e preto com a fachada largamente decorada e com um interior igualmente atraente.
Não é só de história e monumentos que vive a Toscana. A sua paisagem é igualmente bela e harmoniosa: pequenas colinas encimadas pelas ruínas de um castelo ou uma aldeia antiga, vinhedos, olivais ou pequenos bosques. Aqui e além, fiadas de esguios ciprestes, a somar aos girassóis em plena floração nos meses de Verão.
Resta falar da gastronomia. Além das massas, dos cogumelos porcini e dos inevitáveis gelados, há boas carnes assadas ou grelhadas, como a famosa costeleta florentina. E como uma boa refeição pede um bom vinho, a Toscana é a base de um dos mais famosos vinhos italianos — o Chianti. Para rematar, nada como beber um cálice de Vin Santo, um vinho doce e licoroso produzido na região e que se deve beber acompanhado de fatias de biscoitos de amêndoa (cantucci) molhados no próprio vinho. Depois de bem comidos e bem bebidos não há nada que não pareça belo e magnífico.
Fonte: Fugas

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Cuenca, a cidade com queda para o abismo

Rodeada pelos rios Júcar e Huécar e com as casas suspensas numa base rochosa que desafiam todas as leis da física, a cidade espanhola abraça séculos de história no meio de um enclave natural e integra há precisamente 20 anos a lista de Património Mundial da UNESCO.



Como um pobre em frente de um prato de comida, guardando a parte mais deliciosa para o final – assim me sentia eu, naquela tarde em que, em vez de ir directamente olhar as casas suspensas de Cuenca, resolvi caminhar junto a uma das margens do rio Júcar, admirando as cores de Outono pelo meio das árvores que se desnudavam e onde jovens casais conjugavam o verbo amar e as mães o verbo cuidar, os desportistas o verbo exercitar e os mais velhos o verbo descansar.
O campanário da igreja da Virgen de la Luz, na paróquia homónima, reflecte-se nas águas do rio que hoje corre para o Mediterrâneo e há milhões de anos desaguava no Atlântico, depois de se juntar ao Guadiana — quem gosta de cinema e, especialmente de Pedro Almodóvar, terá identificado o Júcar no momento em que Raimunda, interpretada por Penelópe Cruz, lança um frigorífico para as suas águas, com o marido, que matara em casa, no interior.
Cuenca, para muitos apelativa apenas por meia dúzia de atracções, tem a particularidade de convidar o viandante a uma errância solitária e muito mais abrangente do que fazem crer os folhetos turísticos — e situada como está, a quase mil metros de altitude, com as suas subidas e descidas constantes, as suas colinas e as suas ruas que parecem conduzir ao céu, é uma cidade que, por estranho que pareça, estimula os passeios a pé, à aventura sem guias ou mapas, a uma descoberta demorada dos seus mais íntimos recantos.
“Cuenca é uma cidade para digerir, para mastigar devagar, como uma antiga merenda (...). Ou para beber de um gole, como o mau vinho de uma boa bebedeira, essa bebedeira que nos dá para cantar e para jurar amor eterno a cada pedra, a cada insecto, a cada pássaro, a todas as criaturas”, assim a definia Camilo José Cela, Prémio Nobel da Literatura em 1989, num artigo a que deu o título Cuenca abstracta, a da pedra gentil
Da ponte de pedra de San Antón, sobre o Júcar, no lugar onde em tempos existiu uma outra, construída pelos muçulmanos, avisto as casas viradas ao sol, todas muito próximas umas das outras, formando um bairro que parece respirar tranquilidade e não recebe nem uma ínfima parte dos turistas que calcorreiam as ruas empedradas e gastas pelo tempo da parte alta da cidade. Conhecido, também, como o bairro de San Antón, ainda há bem pouco tempo gozava de uma fama que contribuía para afastar os curiosos e que assentava na marginalidade e num estado de semi-abandono, motivando inclusive um plano da edilidade para o demolir.
No início da década de 1960, a população foi mesmo transferida para outro bairro de Cuenca mas as suas casas, ao longo de ruas estreitas ou trepando pela ladeira que conduz ao Cerro de La Majestad, não tardaram a ser ocupadas por grupos mais desfavorecidos. As obras levadas a cabo pelos políticos locais para melhorar as suas infra-estruturas e os serviços, bem como o projecto posto em prática para uma mais fácil integração apoiada nas vertentes urbanística, social e cultural, permitiram que San Antón fosse resgatado das trevas em que ameaçava mergulhar.
Com esta actuação, o bairro não só foi revalorizado como viu aumentar o número de empregos, a circulação de pessoas e afluência na zona de restauração na parte baixa, atraindo, por outro lado, artistas (desde os tempos do Califado de Córdova que Cuenca era conhecida em todo o Al-Andalus pela mestria dos seus artesãos) e estudantes de Belas Artes que, em conjunto com as associações locais — e beneficiando das excepcionais condições paisagísticas —, têm contribuído para que San Antón se tenha tornado nos últimos anos num local de visita obrigatória em Cuenca e não no bairro marginalizado no qual a simples menção do nome provocava temores entre a população. 
Do Cerro de La Majestad avisto as casas suspensas. Uma vertigem.  
Catedral única
Regresso à margem do rio mas logo depois caminho por uma zona mais urbanizada que me leva, sempre a subir, à Calle de Alfonso VIII, com as fachadas dos seus antigos arranha-céus, nenhum deles com mais de quatro pisos, pintadas de cores vivas, de amarelo, de pastel, de azul, de vermelho, e alguns dos seus passeios preenchidos por grupos de jovens de copo na mão, gozando da tepidez do sol outonal. Alfonso VIII cercou a cidade, ocupada pelos árabes, durante oito meses até que, finalmente, esgotou as forças dos habitantes encurralados, incapazes de resistir à fome e aos constantes ataques.
Reza a história que foi a 21 de Setembro de 1177, data em que se celebra San Mateo, que o rei entrou e colocou pela primeira vez um pé em Cuenca — e reza a lenda que foi um pastor, Martín Alhaja, a quem terá aparecido a Virgem, que permitiu a passagem dos cristãos pela porta de Aljaraz (por ser o único que a conhecia), nos dias de hoje rebaptizada como porta de San Juan e que marca o início da parte alta da cidade.
Transponho os arcos e a fachada de estilo barroco do século XVIII que embeleza o edifício da câmara municipal e penetro na praça que se começa a animar ao princípio da tarde e vai explodindo de vida até que a noite substitua o dia. A Plaza Mayor, verdadeiro coração de Cuenca e em forma triangular, é dominada pela fachada da catedral, que a esta hora resplandece sob os raios de sol, adquirindo uma tonalidade de mel. As esplanadas estão cheias, as mesas repletas de tapas e de bebidas, a atmosfera tem algo de festivo mas nada mais há para celebrar do que a vida, neste sábado de temperatura amena e à hora em que todos os espanhóis gostam de sair à rua para beber um copo. Quando planto um olhar mais demorado na catedral, fico com a sensação de que está ali não apenas para ser admirada mas à espera de que alguém, entre a multidão, se lembre de terminar as obras. Na verdade, a parte mais alta da catedral de Nuestra Señora de Gracia, erguida no século XII, está por concluir devido ao desabamento da torre sineira em 1902.
Alvo de frequentes renovações, a catedral, com o seu estilo gótico normando, é única em Espanha do género e esconde, no seu interior, elementos decorativos de grande valor histórico, como os seus vitrais, a sua dupla charola (deambulatório), acrescentada nos séculos XV e XVI, o arco de Jamete, a elegante porta renascentista que permite o acesso ao claustro e que é considerada uma das mais monumentais do renascimento espanhol em interiores e, finalmente, entre paredes que também abrigam duas dezenas de capelas, o coro, com uma escultura em alabastro da Virgem, obra de Giraldo de Flugo, e uma imponente grade assinada por Hernando Arenas, um grande conhecedor da arte de trabalhar o ferro do século XVI.
Desde tempos de antanho que a vida em Cuenca sempre se desenvolveu em redor da Plaza Mayor mas com a tomada da cidade, nesse último quarto do século XII, os judeus passaram a ocupar a Calle de Zapaterías, enquanto os muçulmanos ficaram relegados ao seu bairro, na zona da Mangana, onde espero chegar lá mais para o fim da tarde.
O bairro do castelo
Partindo da praça e seguindo ao longo da Calle de San Pedro, vou primeiro ao encontro da parte mais alta de Cuenca, o Bairro del Castillo, durante muitos séculos a principal artéria da cidade, com as suas casas senhorais e magnificentes igrejas e conventos, entre eles o das Carmelitas Descalças, um edifício que é justamente considerado como um dos mais belos de toda a urbe e hoje ocupado pela Fundação Antonio Pérez, com uma importante amostra de pinturas, esculturas e livros. Até desembocar na Plaza del Trabuco, onde termina a Calle de San José e que é presidida pela igreja (data do século XV e terá sido a primeira a ser construída na cidade) também dedicada ao santo, é inevitável que o olhar se pouse, com uma frequência fora do vulgar, em algumas das construções civis mais proeminentes de Cuenca, como a Casa Zavala e o Palácio de los Toreno ou o antigo Colégio de los Infantes de Coro, agora vocacionado para o ramo hoteleiro (ver Posada de San José no capítulo Onde dormir).
De tanto subir, fico com a sensação de que não tardo a esticar a mão e a tocar o céu. Chego, sem grande pressa, ao castelo, ou melhor ao que resta dessa fortaleza outrora inexpugnável, como o Arco de Bezudo, restaurado há pouco tempo, uma parte da torre e uns vestígios da muralha. Do miradouro, com uma panorâmica soberba, avisto, ao fundo, o Convento de San Pablo e as casas suspensas.
Como o pobre em frente ao prato, continuo a adiar a aproximação àquele que é o emblema da cidade.
Subo e, à esquerda, deparo-me com bonitas casas térreas banhadas pelo sol, algumas delas transformadas em restaurantes e cheias de gente grata pelo bom humor do Outono, num ambiente que talvez se aproxime mais do que qualquer outro daquele que Cuenca proporcionava há muitos séculos, cheio de carácter, com uma identidade própria, que não se respira em mais lado nenhum em toda a cidade. A partir daqui, olhando com respeito o abismo, o cenário magnetiza, o que se vê à distância, já envolvido pelas sombras, tem algo de assombroso, a ponte de San Pablo, outra vez o convento, outra vez as casas suspensas, com as suas varandas de madeira que parecem minúsculas.
Está na hora de descer, pelo menos até à Plaza de la Merced e, sem supresa, de subir uma vez mais, agora ao longo de umas escadas que conduzem, como se esse fosse o meu destino final, à Plaza de Mangana, palco do monumento da Constituição, um trabalho de Gustavo Torner, e da Torre Mangana, ocupando o lugar antes preenchido pela fortaleza árabe. Olho o relógio da cidade, também na praça, que me indica que é tempo de partir, de voltar a descer.
Da ponte de San Pablo, a evitar para quem sofre de vertigens, fito as casas suspensas, aproximo-me cada vez mais daquelas que constituíram, noutros tempos, uma solução para a habitação e embrenho-me por uma praça perfumada, grato pela intimidade que me transmite. A Plaza Ronda, no bairro que em Cuenca todos conhecem como San Martín, está a dois passos de algumas bonitas mansões do século XVIII e princípios do século XIX. A noite cai subitamente, volto à ponte e por ali fico, até me fartar, olhando as casas suspensas que se enchem de luz, as suas varandas debruçando-se sobre o abismo engolido pelas trevas.
O pobre pode agora deliciar-se com o melhor que tem no prato. Lembro-me, uma vez mais, das palavras que lera um dia, da autoria de Camilo José Cela, o escritor galego que nasceu há 100 anos e a quem a cidade dedica um carinho especial. “O viajante descobriu Cuenca, e ao viajante não lhe cabe o coração no peito.” As luzes continuam a cintilar, há muitas estrelas no céu, Cuenca parece agora mais evocativa do que nunca. Talvez porque Cuenca é uma eterna catarse. 

GUIA PRÁTICO
COMO IR
Cuenca não é servida por qualquer ligação aérea e os aeroportos mais próximos são os de Barajas, em Madrid (160 km), de Albacete, mais ou menos à mesma distância, ou Valência, a pouco menos de 200 quilómetros de distância. Desta última ou de Madrid há pelo menos quatro comboios por dia que ligam a Cuenca e que cumprem o trajecto em cerca de três horas mas também há serviços de autocarro (o terminal está situado na Calle Fermín Caballero) desde diferentes cidades espanholas, pelo que é conveniente, se optar por esta solução, consultar os sites de algumas empresas como a Auto-Res S. L. (www.avanzabus.com), Alsa (www.alsa-grupo.com) ou MonBus (www.monbus.es). Se preferir alugar carro, uma alternativa que lhe permitirá visitar outros lugares nas redondezas de Cuenca, siga a A-3/E-901 (desde Madrid) em direcção a Valência e, uma vez chegando à localidade de Tarancón, entre na A-40/Cu-11, em direcção a Cuenca; se voar para Valência ou partir da capital da província homónima e da Comunidade Valenciana, circule na mesma via (A-3/E-901), em direcção a Madrid, até encontrar a povoação de Minglanilla, onde encontrará indicações para desviar para a N-320, no sentido Almodovar del Pinar-Cuenca. 
QUANDO IR
Cuenca goza de um clima mediterrânico continental temperado, marcado por dias frios durante o Inverno (época em que ocorrem as maiores precipitações) e por temperaturas suaves nos meses de Verão. Na prática, e não obstante a oscilação térmica registada ao longo de todo o ano, com particular incidência na época estival, a cidade pode ser visitada em qualquer altura do ano.
ONDE COMER
Cuenca é uma cidade onde as tapas ocupam um lugar especial na vida dos seus habitantes e, por tabela, entre os muitos visitantes que recebe ao longo do ano. Um pouco por todo o lado, não terá dificuldade em encontrar espaços que oferecem um petisco como complemento a uma bebida mas os melhores estão localizados na parte antiga, especialmente nas esplanadas que decoram a Plaza Mayor e na rua íngreme que está para lá das ruínas do castelo, a caminho do parque onde mais facilmente pode estacionar o seu carro. Abundam as especialidades, como cordeiro assado ou de caldeirada, a perdiz, bem como o presunto e queijo manchegos, cujas fronteiras há muito ultrapassaram os limites da província. Pode sempre experimentar o Mesón Colgadas, na Calle Canónigos, 3, com uma panorâmica sobre o convento de São Paulo e a ponte de ferro, o Figón de Pedro, na Calle Cervantes, 13, com cozinha tradicional, ou o San Nicolás, na Calle San Pedro, 15, num edifício histórico da cidade, onde o bom gosto acompanha muitos dos seus pratos, muitos deles premiados ao longo dos anos. 
ONDE DORMIR
Para uma experiência inesquecível, a melhor opção passa pelo Parador de Turismo, abrigado no antigo convento de São Paulo, com o seu estilo gótico tardio. Erguido no século XVI, por ordem do cónego Juan del Pozo, na presunção de o oferecer aos dominicanos, serve de cenário, desde 1993, para o Parador Nacional de Turismo, com mais de seis dezenas de quartos que se dividem por três pisos e decoradas segundo um estilo castelhano clássico — algumas têm vista para o claustro e outras, mais apreciadas ainda, uma panorâmica soberba sobre a foz do rio Huécar, a ponte de São Paulo e as famosas casas que se debruçam sobre o abismo.
Ocupando uma das dependências de uma antiga mansão do século XVIII, na parte alta da cidade, na San Pedro, 58-60, o Leonor de Aquitania, nome da irmã de Ricardo Coração de Leão e mulher de Alfonso VIII, é uma alternativa a considerar, com algumas das habitações com vista para a Ronda del Huécar e um restaurante, o Horno de las Campanas, que vale a pena experimentar. Finalmente, se nenhum destes dois lhe agradar, tente a Posada de San José, na Calle de Julián Romero, 4, outra mansão, do século XVII, célebre por ter acolhido a filha do pintor Velásquez e a sua família e onde, numa das habitações, o artista sevilhano terá produzido, alegadamente, o esboço de Las Meninas. Os quartos, inspirados num estilo rústico, são confortáveis e a pousada tem uma história que remonta aos anos 50 do século passado, quando foi fundada por Fidel Garcia Berlanga, irmão do conhecido cineasta Luís Garcia Berlanga (1921-2010).
A VISITAR
Situado numa das casas suspensas, propriedade da edilidade, o Museo de Arte Abstracto Español justifica uma visita demorada ao longo da disposição labiríntica do seu interior. Gerido pela Fundação Juan March, o espaço foi inaugurado há precisamente 50 anos, com pinturas e esculturas do conceituado artista Fernando Zóbel e de outros representantes da denominada geração abstracta. Actualmente, acolhe uma exposição permanente de trabalhos assinados pelos melhores artistas desse movimento, dos anos 1950 e 60 mas também das décadas de 80 e 90, bem como uma das mais importantes bibliotecas especializadas em arte.
Não deixe de dedicar também algum tempo ao Museu Arqueológico, na Calle Obispo Valero, 12, ao Museu Diocesano, no Palacio Episcopal e, mais ainda — porque é o tempo que o comanda — ao Museu das Ciências de Castilla-La Mancha, na Plaza de la Merced, 1.
Fora da cidade, aproveite para errar por umas horas pela Cidade Encantada, a menos de 40 quilómetros de Cuenca, onde o rio Júcar, na sua caminhada entre Uña e Villalba de la Sierra, forma uma garganta profunda. A acção da água, do vento e do gelo moldou a paisagem com uma precisão difícil de perceber para um leigo mas ao ponto de criar rochedos que intrigam o visitante pelas suas formas insólitas. 
INFORMAÇÕES
Os cidadãos portugueses apenas necessitam de um documento de identificação (que tanto pode ser o passaporte, como o Bilhete de Identidade ou o Cartão de Cidadão) para visitar o país.
Fonte: Fugas

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

E as cidades mais vibrantes no mundo são?

Chicago alcançou o primeiro lugar do ranking das cidades mais vibrantes, seguida de Melbourne, Lisboa e Nova Iorque.
Esta lista foi divulgada através do Time Out City Index, um questionário ao qual responderam 20 mil pessoas, espalhadas por 18 cidades, e que avalia o que promove (ou não) uma cidade quando se trata do que podemos fazer para tirar partido dela nas seguintes dimensões: comer & beber, inspiração, dinamismo, comunidade, acessibilidade de preços e sociabilidade.
1. Chicago
2. Melbourne
3. Lisboa
4. Nova Iorque
5. Madrid
6.Cidade do México
7. São Paulo
8. Los Angeles
9. Barcelona
10. Londres
11. Hong Kong
12. Miami
13. Tóquio
14. Singapura
15. Paris
16. Sydney
17. Dubai
18. Kuala Lumpur


Fonte: Viagens & Resorts
 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Si Phan Don, um arquipélago no largo coração do Mekong

Eis o tempo ideal para uma viagem pelo Sul do Laos, onde o Mekong se alonga até quase parecer um lago e a memória khmer vive no complexo religioso de Vat Phou, o equivalente de Angkor em terra laociana.

Por ora, as paisagens mais meridionais do Laos ainda conservam uma paleta de verdes cintilando sob uma campânula de luz claríssima. Mas daqui a alguns meses será como atravessar a savana africana — a estiagem virá transfigurar o cenário e o cinzento dos matagais há-de arder ao sol, só suspenso aqui e ali por um ou outro arrozal à beira do Mekong.



Desde Savannakhet, a porta de entrada para o Sul do Laos para quem vem da Tailândia, via Ubon Ratchathani, ou do Vietname, pela fronteira de Lao Bao, até chegar a Pakse, o caminho mostra o rosto de um país que se tem mantido arredado do boom de desenvolvimento dos seus vizinhos (à excepção do Camboja), os designados “tigres asiáticos”, nas últimas décadas, apesar da retórica grandiloquente — e com explícito e copioso vocabulário neoliberal — produzida em Vienciana pelo poder (ainda) comunista, que mantém um sistema monopartidário e uma centralização política e administrativa mas liberalizou uma parte da economia. Nos cartazes de propaganda estampados à beira do Mekong, na capital, há arranha-céus de papel, mas tais projecções quiméricas não chegaram a este Sul mais ou menos remoto.

Aqui abundam aldeias de casas rústicas assentes em estacas de madeira, “à prova” dos vendavais e inundações da monção, a maioria em madeira com coberturas de palha muito inclinadas para fazer face aos dilúvios sazonais da estação das chuvas. Outras, poucas, são de alvenaria e exibem-se pintadas de cores berrantes, porventura para reforçar urbi et orbi o estatuto possidente dos inquilinos, quase todas elas com frontões triangulares à maneira das fachadas dos templos.

Os meios de transporte afinam com a elementaridade reinante: apanha-se um autocarro caduco, mas lesto, em Savannakhet, a transbordar de quilometragem e passageiros e tralhas, e a meio da viagem através da savana um pneu cansa-se e estoura com a solenidade de um foguete tradicional, sem que entre os viajantes avulte qualquer sobressalto ou alguém pestaneje. Espera-se com oriental paciência ao sol enquanto outro pneu sai lá dos derradeiros assentos, rolando por cima das bagagens entrincheiradas no corredor do autocarro. Em cada paragem, para provimento dos passageiros, lá acorre o pitoresco das vendedoras de espetadas e outros petiscos fumegantes a passearem dentro da nave.

Em Savannakhet o Mekong já se apresenta com amplidão, mal se avistando a outra margem. O mesmo em Pakse, onde um afluente, o Nam Sedone, vem engrossar o caudal que, mais adiante, na região de Si Phan Don, atingirá o seu expoente máximo — durante a monção a largura pode ultrapassar os dez quilómetros. Aí, o Mekong, um dos maiores rios da Ásia, bem se assemelha a um lago, sobretudo se já passaram as enchentes torrenciais da monção e se descontarmos os braços por onde as águas rolam em rápidos e tombam em cascatas, perto da fronteira com o Camboja.

Pakse é o ponto de partida para a última etapa até Si Phan Don e é uma base com infraestruturas minimamente adequadas para se preparar expedições a outros lugares de interesse do Sul do Laos, como o planalto de Bolaven, região montanhosa de clima temperado povoada por cafezais e impressivas quedas de água e cada vez mais popular entre os ecoturistas, e o complexo religioso de Vat Phou, que concilia arquitectura khmer e hinduísmo.

Ilhas no fim do mundo

Si Phan Don, que na língua local significa “quatro mil ilhas”, não é a região mais remota do Laos — nos últimos anos tornou-se, aliás, uma zona de passagem para o Camboja para quem não queira dar a volta pela Tailândia e entrar pela fronteira de Poipet ou andar a cirandar pelo Vietname até Ho-Chi-Minh e a partir daí navegar pelo Mekong até Phnom Penh. Mas os trâmites de fronteira em Strung Treng e o sistema de transportes, distantes da débil regulação do poder central de Vienciana (um paradoxo, sendo o Laos, oficialmente, um país comunista) e sujeitos a arbitrariedades, não facilitam a vida dos viajantes, pelo que uma boa parte dos forasteiros que aqui vem parar fá-lo essencialmente em busca de experiências de turismo cultural ou de ecoturismo.



Outro atractivo deste imenso arquipélago de incontáveis ilhas e tão longe do mar, além dos trekkings nas áreas protegidas do planalto de Bolaven, é a possibilidade de observação de golfinhos (da espécie Orcaella brevirostris), uma comunidade em forte declínio no Mekong (restam cerca de 80 em Si Phan Don, segundo o World Wild Fund) que tem sido objecto de iniciativas de protecção por parte de várias entidades, como o WWF. Uma das ameaças que se perfilam no horizonte é, precisamente, a do megaprojecto hidroeléctrico de Don Sahong, planeado para um local próximo da fronteira com o Camboja e apenas a cerca de um quilómetro do habitat dos golfinhos.

O número de ilhas e ilhotas varia de acordo com a estação e o volume do caudal do Mekong. Só algumas das ínsulas são habitadas e as escolhas dos visitantes são condicionadas também, sem estranheza, pela oferta (ou falta dela) de animação de carácter turístico e pela oportunidade de uma aproximação à vera vida e ambiência local, sem aquela crescente decoração espaventosa do turismo “alternativo”, que ameaça padronizar festivamente todos os cantos do globo ao som do chillout. Sem exagero, Don Khong e Don Det (e a sua “irmã gémea” Don Khon, um tanto maior e mais tranquila) estão em pólos opostos.

A primeira, a mais espaçosa das ilhas deste vasto arquipélago fluvial, é um oásis, quase sem automóveis e forasteiros, um oásis tão abençoado para se repousar das extenuantes jornadas pelo Laos quanto para pedalar (literalmente) pelos cénicos palcos onde se desenrola a vida rural local. Don Det e Don Khon são vizinhas (estão ligadas por uma velha ponte ferroviária do tempo colonial agora convertida em passeio pedonal), são mais frequentadas por turistas (mais a primeira do que a segunda) em busca de cenas trendy e dispõem de maior oferta de alojamento e diversão — basicamente bares, restaurantes e esplanadas à beira do rio úteis para cultivar preguiças ao sol. Don Daeng pertence a outro capítulo: localizada mais perto de Vat Phou, conserva ciosamente uma atmosfera rural, sem veículos automóveis (salvo alguns pequenos tractores agrícolas) ou sinais excessivos de descaracterização arquitectónica. Caminhadas ou passeios de bicicleta (a ilha tem cerca de doze quilómetros de extensão) e estadias no lodge comunitário ou em regime de homestay na aldeia de Ban Hua, com degustação de comida caseira, são argumentos de monta para se estanciar alguns dias nesta ilha.

As van japonesas e sul-coreanas que saem de Pakse para Don Det podem fazer, a meio caminho e a pedido de passageiros transviados, em trânsito a contracorrente, um desvio de dois ou três quilómetros desde a estrada principal até ao lugarejo de Hatsay Khoun, na margem do Mekong. Depois, basta esperar arrimado a uma canoa ou à sombra de uma árvore até aparecer um barqueiro que nos leve até Don Khong, mais exactamente até ao povoado de Muang Khong, um aglomerado com pouco mais de uma vintena de casas, algumas suspensas sobre estacaria fincada rente à água, e um templo budista. É aí que está concentrada a oferta de alojamento da ilha, paredes-meias com um punhado de restaurantes debruçados sobre o rio.

A travessia, feita numa pequena barcaça a motor, dura menos de dez minutos. Sombat, o barqueiro desta circunstância, que será das poucas pessoas que no Laos ainda falam francês, é célere em propostas proveitosas para o viajante: ficam duas navegações combinadas para os dias que se seguem, às ilhas de Don Det e Don Khon (não confundir com Don Khong), para visitar as cascatas de Som Pha Mit, e a Don Daeng.




Ao primeiro dia de estância em Muang Khong, a “capital” da ilha, calha um far niente de averbar graças ao espírito cansado das vertigens da longa viagem desde Da Nang, à beira do agora distante Mar da China. Como na fala dos aborígenes do Canto Nómada, de Chatwin, é preciso parar um certo tempo para se esperar pela alma, ou coisa que se assemelhe e faça as suas vezes, que foi ficando para trás. A vista da enorme varanda do hotel é um bálsamo. Quase todas as pousadas da ilha têm este cenário impoluto a decorar a placidez de Muang Khong: o rio, amplíssimo como um lago, um espelho emoldurado por vegetação de onde sobressaem aqui e ali os pináculos ovalados e brancos das stupas budistas.


O rio é a vida

Um par de dias é pouco para o tanto que há para ser admirado. Mas as bicicletas alugadas nos pequenos hotéis ribeirinhos dão uma ajuda e as mil e uma voltas pelos caminhos de terra da ilha põem o viajante em intimidade com o mundo campesino de Don Khon: arrozais e arrozais, búfalos cinzentos a rebolar-se na lama, breves aldeias com casinhas de tábuas cobertas por telhados de zinco e assentes em estacaria, miudagem a chapinhar no Mekong em algazarras de fim de tarde, o povoado de Muang Saen e os seus mercados de rua, do outro lado da ilha, música tocada no khene, um instrumento tradicional de sopro muito popular no Laos, em melodias a escapar-se das casas de portas sempre abertas, templos budistas plantados à beira do rio, silenciosos e luzentes, a brilhar entre palmeiras e vegetação exuberante.

As navegações de barcaça alimentam outros retratos, que o viajante levará consigo quando deixar este arquipélago do fim do mundo da terra laociana: barcos e barquinhos para cima e para baixo, uns largos e outros com a forma de esguias canoas, ágeis a atalhar a corrente, uns com gente apenas e outros com mercadorias, sortida tarecada e motoretas, pescadores a lançar as redes, o casario em paliçada alinhado nas margens, um pintor a avivar as cores de um casco tão entretido que não ouve quem chama por ele. Isso tudo e muito mais, como o barqueiro Sombat a atracar numa ilha para recolher a filhota à saída da escola e passar-lhe o leme por uns curtos minutos, já no largo coração do Mekong.

Aqui tudo, ou quase tudo, se faz à volta do rio ou com a sua bênção. “O rio é a vida”, diz Sombat a propósito do que consta sobre o projecto hidroeléctrico que, ao que parece, transformará irremediavelmente o ecossistema de Si Phan Don e poderá provocar insegurança alimentar a um universo de cem mil pessoas, para além de perturbações nos sistemas hídrico e geológico. Negócios multinacionais pouco claros: é o que sugerem várias organizações ambientais que lançaram campanhas para bloquear a iniciativa.



Ao fim de uma semana de andanças anfíbias, entre barcaças e bicicletas e caminhadas ao longo das margens do Mekong e dos arrozais, o retorno à varanda do hotel assemelha-se a um regresso a casa, a uma casa sazonal, como as dos pastores nómadas, familiar e reconhecível mas sem o ónus de jaula dourada: um lugar afável, enfim, onde se pousa, brevemente, o corpo e o cansaço. Neste penúltimo dia de estância em Don Khong, assente já com Sombat o transbordo para Hatsay Khoun, onde uma van me levará a Champasak (outro povoado ribeirinho rodeado de arrozais e templos), o barqueiro quer saber quantos são os rios percorrem a Europa. Muitos, tantos, pequenos e médios e grandes, que daria uma trabalheira contar. Ao lusco-fusco, com milhares de insectos magnetizados pelas luzes da esplanada de ripas sobre a margem, arrisco o cálculo, ou a hipérbole: todas as suas águas juntas não encheriam o Mekong. E quando Sombat me estende a mão e se despede, até ao amanhecer do dia seguinte, volta a lembrança de um instante da véspera, quando o barco era como mais uma ilha, mas em movimento, um instante aceso pela imagem da pequena Kimo ao leme. Sombat tinha as mãos livres, os olhos fixos na corrente, e disse, sem olhar para ninguém: “O rio é a vida.”

Shiva antes de Buda

A pouco mais de uma dezena de quilómetros da aldeia de Champasak e a cinco das margens do Mekong, encontra-se um dos recintos históricos mais antigos e valiosos do Laos, o complexo religioso de Vat Phou, um espaço arqueológico que pode constituir um inestimável e muito significativo complemento da viagem a Si Phan Don.

O conjunto monumental de Vat Phou é anterior a Angkor e as suas raízes recuam até ao século V, muito antes da consagração do Budismo no território que viria a ser o do Laos. Ainda que na arquitectura dos templos a marca cultural khmer tenha uma presença forte (os edifícios principais datam dos séculos XI a XIII, mais ou menos o período áureo de Angkor), é uma visão do mundo de origem religiosa hindu que a sua planificação e inserção na paisagem configura. Como se faz notar no documento da UNESCO que sustenta a classificação de Vat Phou (e da paisagem cultural de Champasak) como Património Mundial, para além de excepcional testemunha das culturas que dominaram a região do Sudeste Asiático durante vários séculos, o complexo foi concebido de forma a expressar a visão hindu sobre as relações entre natureza e humanidade através de um longo eixo traçado entre a montanha e as margens do Mekong e de uma geometria padronizada de edifícios religiosos, numa extensão de cerca de dez quilómetros.

A visita ao museu é fundamental para uma percepção da riqueza cultural do sítio (estão ali expostos elementos arquitectónicos e escultura, entre outros objectos). Vale a pena, também, subir a colina, não apenas por causa das ruínas que por ali sobrevivem, mas também pela vista que se tem sobre todo o complexo e a imensa planície verde que se estende até Si Phan Don.

A montanha Phou Kao chegou a acolher um templo primitivo, entretanto desaparecido. O santuário principal, que tem vindo a ser objecto de restauro desde 1991, foi dedicado a Shiva. Não por acaso. O cume da montanha terá sido, então, interpretado como um símbolo fálico, associado nas narrativas sagradas hindus ao deus Shiva.


GUIA PRÁTICO

Como ir

A opção mais directa é apanhar um voo em Paris ou em Frankfurt para Vienciana, via Banguecoque ou Kunming, no Sul da China. A partir da capital do Laos há voos domésticos para Pakse. Há também autocarros diários para a capital da província de Champasak, que fica a quase 700 quilómetros de Vienciana, o que implica uma longa viagem de mais de dez horas. Outra opção é voar de Paris para Ho-Chi-Minh e apanhar aí uma ligação para Pakse. A partir de Banquecoque, há também ligações ferroviárias para Ubon Ratchathani, que fica perto da fronteira com o Laos, e daí autocarros diários para Savannakhet.

Quando ir

A estação seca — entre Outubro e Maio —, é a época mais propícia para viajar pelo Laos. O período que decorre de Novembro a Março é caracterizado por temperaturas mais moderadas.

Onde ficar

Em Don Khong, junto ao cais, há uma série de alojamentos para várias bolsas. Apesar de a oferta não ser tão extensa quanto em Don Det ou em Don Khon, se não for época alta não é necessário fazer reserva — a frequência turística é moderada. Muito perto do cais está o Pon Arena Hotel, uma das melhores opções (tel.:856 310253065; fax: 856 0310253066; email pon_arena@hotmail.com). Em Don Det, a cinco minutos da ponte que une a ilha a Don Khon, fica o River Garden Bungalows, que tem uma agradável esplanada sobre o rio (tel.: 856 207701860, email info@rivergardenlaos.com). Em Don Daeng, o La Folie Lodge, com os seus amplos bungalows em madeira, representa uma oferta num segmento superior e está envolvido em projectos de desenvolvimento comunitário na ilha (tel.: 856 20 55 532 004; email info@lafolie-laos.com; mais informação em http://www.lafolie-laos.com).

Informações úteis

Os cidadãos portugueses podem obter visto para o Laos à entrada. Normalmente o prazo de validade é de 30 dias. Mais informações em www.portaldascomunidades.mne.pt. Não há bancos ou caixas automáticas, pelo que convém levar dinheiro suficiente para a estadia. Alguns alojamentos fazem troca de divisas — dólares ou euros —, mas as taxas de câmbio são muito pouco aliciantes.

Fonte: Fugas

sábado, 31 de dezembro de 2016

Desejos para 2017

Neste último dia do ano, desejamos que tenha um promissor ano de 2017, com viagens à medida e muitas outras coisas boas!



quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Caça às trufas na Ístria

A Trufa é um cogumelo muito cativante para os chefes dos quatro cantos do mundo devido ao seu sabor inigualável. Na Ístria, Croácia existe um tipo de trufas considerado "um segredo bem guardado à  espera de ser descoberto". A cozinha internacional já começou a demonstrar interesse neste destino e o número de visitantes têm vindo a aumentar nos últimos anos. 




A caça às trufas decorre entre os fins de Outubro e o início de Dezembro. Durante este tempo, cerca de 3 mil caçadores acompanhados por cães devidamente treinados dirigem-se até às florestas de Oprtalj, Livade e Buzet. Foi numa destas caçadas que Giancarlo Zigante encontrou uma das maiores trufas do mundo - uma trufa com 1,3kg. Actualmente já existem empresas que organizam excursões para caçar trufas, permitindo aos visitantes encontrarem esta iguaria. 


Fonte: New York Times e The Travel Magazine

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Glamping sumamente romantico para ver estrelas

Longe vão os tempos em que acampar significava dormir numa tenda e num saco cama, um tanto ou quanto desconfortáveis. Para nosso gáudio, a noção de acampamento  foi modernizada e adaptada aos gostos dos viajantes mais requintados. Para tirar o melhor proveito de uma estadia na natureza surgiu o glamping, uma fusão entre glamour e camping, que prevê uma estadia em tendas de estrutura fixa e que podem ser incrivelmente luxuosas.O melhor de tudo é poder adormecer a olhar as estrelas e acordar a admirar o céu, principalmente se tiver a oportunidade de fazê-lo ao lado da sua cara-metade! Os acampamentos que lhe apresentamos na nossa newsletter de Outubro são opções ideais para desfrutar de uma magnífica estadia a dois, ou até em família.Além destas sugestões, damos-lhe mais duas a pensar na sua tranquilidade: a possibilidade de ter o check-in das malas feito com recolha em sua casa (poupando-lhe todo o trabalho e peso) e também o serviço de aluguer de malas. 



SANCTUARY SWALA, TANZÂNIA
Romantismo, natureza intocada e uma paisagem de luxo são os ingredientes que são cozinhados neste lodge. No coração do Parque Nacional de Taranguire (Tanzânia), o Swala Sanctuary é um acampamento safari exclusivo que oferece luxo e algumas cabanas construídas com os mais elevados padrões ambientais. Não há nada mais romântico do que ver o nascer do sol em plena savana!


 O Treebones Resort oferece acomodações únicas na majestosa costa da Califórnia a partir de Big Sur. Com vistas panorâmicas sobre o Pacífico e rodeada pelas mais puras vistas do oceano, este acampamento torna-se um lugar perfeito para desfrutar de um céu estrelado em noites românticas.


SERAI, ÍNDIA 
No coração do grande deserto de Thar (Índia), pode encontrar tendas muito especiais. Descansando num altar em pedra, Serai oferece tendas de inspiração militar Raj num cenário edílico! Que mais se pode pedir quando se está apaixonado?


MOINHO DO MANEIO, PENAMACOR, PORTUGAL
Classificada como Casa de Campo, o turismo rural do Moinho do Maneio é um empreendimento pequeno. Aqui pode dormir numa tenda esférica, permanentemente insuflada, com cama de casal e onde se pode ter uma experiência de dormida única e inigualável, dormir sob as estrelas. Posicionada numa plataforma, numa escarpa, quase por cima da ribeira, quase na copa das árvores.  Esta bolha garante a total privacidade aos seus visitantes. Para além de, em anexo, possuir uma casa-de-banho ecológica, todos os visitantes terão ao seu dispor uma casa-de-banho completa, exclusiva para os hóspedes da Bolha. É possível desfrutar de um maravilhoso pequeno-almoço na bolha. Para poder descansar e aproveitar ao máximo este paraíso não existe internet na bolha, nem televisão.

sábado, 24 de dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Portugal é destino do ano para a Travel+Leisure

Editores da revista norte-americana escolheram Portugal como o melhor destino do mundo em 2016. Crescimento económico e diversidade da paisagem entre as razões para a escolha.


O anúncio foi feito em Óbidos, num vídeo em directo publicado no Facebook. E no Youtube também já se passeiam 360º de paisagens cénicas pela vila histórica. A equipa da Travel + Leisure esteve em Novembro por terras lusas  a preparar as filmagens e agora é oficial: Portugal é o destino do ano 2016 para a publicação.


A crise económica deixou Portugal “à beira da falência e o financiamento público para as artes secou” durante o pico da recessão. Mas “os jovens empreendedores pegaram no problema com as próprias mãos, aproveitando o talento e os recursos naturais – resultando numa cena cultural rica”. É assim que os editores da Travel+Leisure, uma das bíblias das viagens a nível internacional, começam por justificar a escolha de Portugal como “destino do ano” de 2016.
E os argumentos continuam longe dos predicados turísticos clichés do país. Depois da economia, nota para a situação política nacional. “Uma mudança de partido no governo em 2011 acalmou os ânimos na situação política [do país] e actualmente o turismo está em ascensão, ajudado pela acessibilidade [de preços] e pelo clima quente todo o ano”. Nem o polémico caso da quase venda da colecção de quadros de Joan Miró por parte do governo foi esquecido. Mas, defendem, "na esteira da crise, Portugal conseguiu florescer de novo" e, até certo ponto, a situação "pode ter ajudado a indústria turística no país". "Continuou a ser muito mais barato para os viajantes do que a maioria dos países vizinhos - um contraste particularmente evidente nas cidades de turismo de sol e praia e nas capitais culturais do país", argumentam.
Ora, na hora de escolher o destino do ano, a equipa da Travel+Leisure procura "lugares que pareçam excitantes, que garantam e justifiquem uma redescoberta e que tenham conseguido entrar por si próprios no palco internacional de alguma forma". Este ano, "Portugal era um país que se encaixava naturalmente" neste perfil, defendem. 
Desde a nova cena cultural, alavancada por empreendedores e artistas, ao aumento do número crescente de turistas estrangeiros, de hotéis novos e de voos, com a referência às novas ligações directas para cidades dos Estados Unidos a surgirem em destaque. 
Mas há mais razões para a eleição. Portugal é acessível (bastam sete horas de avião a partir da costa Este dos Estados Unidos), tem temperaturas amenas todo o ano, continua relativamente barato e conta com recursos naturais abundantes e património rico.
A revista disseca o país por inúmeros ex-líbris, com um artigo online para cada um. Do centro histórico da vila de Óbidos, relevado numa panorâmica a 360º a “23 fotografias que vão pô-lo a planear uma viagem a Portugal rapidamente”, ou 12 imagens antigas do país. E há ainda um guia de Lisboa, os petiscos que se comem na capital portuguesa, uma lista com as principais atracções da cidade, os melhores restaurantes e os principais hotéis alfacinhas. Mas também o “revolucionário conceito de ecoturismo” já sedimentado no país, um guia para ter “o dia de praia perfeito na Comporta” ou com os melhores lugares de Portugal para quem ama aventura. Não esquece os vinhos, os Açores, nem sequer o hotel CR7 no Funchal. E a lista continua, numa compilação dos artigos que a revista tem publicado sobre Portugal nos últimos meses.
Todos os anos, a publicação de viagens sediada em Nova Iorque põe os leitores a escolher o destino do ano numa votação online. Este ano, os leitores escolheram a Croácia, com 28% dos votos, ligeiramente acima de Portugal, que ficou em segundo, com 24% (e que acabaria por ser o preferido dos editores da revista). 
Fonte: Fugas

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Balada de uma viagem

A história da Música é quase tão extensa quanto a do próprio Homem. De sopros em pequenas flautas de osso até espectáculos de centenas de instrumentos em salões ou coliseus apinhados, a evolução desta arte tem espelhado a nossa própria enquanto espécie. Historicamente, cada cultura tem desenvolvido os seus estilos de música. Frequentemente, locais como uma cidade são capazes de influenciar todo o panorama musical mundial através da propagação de um novo género. Assim, talvez queira ligar as colunas e ajustar o volume - vamos dar uma volta por algumas cidades
pioneiras de géneros musicais.


GNAOUA, ESSAOUIRA, MARROCOS 
Todos os anos, tem lugar na cidade de Essaouira, em Marrocos, um festival de música que reúne artistas estrangeiros e músicos locais. Aqui, os ritmos dos mais diversos países encontram a música tradicional gnaoua - um estilo colorido, vivo, mexido e cheio de animação que encontramos sobretudo no norte de África. Nesta cidade que até já foi ocupada por Portugal no Século XVI, as ruas enchem-se de movimento, de alegria e de muita música, para todos os gostos. O folclore regional preserva tradições musicais milenares, que ao longo das gerações têm sido transmitidas de pai para filho. Este ano, o festival foi em Junho, e acolheu muitos milhares de visitantes.


JAZZ, NOVA ORLEÃES, EUA 
Lar de um dos músicos mais marcantes do Século XX, Louis Armstrong, Nova Orleães é considerado o berço da música jazz. Sendo uma zona ligada historicamente a culturas como a francesa, a africana e a sul-americana, esta cidade do Louisiana viu a convergência destes estilos dar origem a um novo género musical no início dos anos 1900. Com os tradicionais clubes de jazz e as célebres marchas anuais de Mardi Gras, Nova Orleães continua, mais de uma década depois de ter sido devastada pelo catastrófico furacão Katrina, a ser um local fascinante para visitantes de todos os pontos do planeta.


CLÁSSICA, VIENA, ÁUSTRIA
Durante os Séculos XVIII e XIX, a capital austríaca tornou-se também a capital da Música. Com o mecenato de ricas famílias como a própria família real, músicos de toda a Europa rumaram a Viena para compor as suas peças e executá-las num dos muitos teatros e arenas da cidade. Durante esse tempo, compositores como Mozart, Beethoven, Schubert ou Strauss caminharam pelas históricas ruas da cidade, e retiraraminspiração do rio Danúbio que a divide. Com uma das mais famosas orquestras filarmónicas do Mundo, Viena continua a ser, ainda hoje, um pólo de talento musical clássico.


K-POP, SEUL, COREIA DO SUL 
Criado no início dos anos 90, mas só popularizado no final da mesma década, o K-Pop consiste num estilo musical juvenil que inspirou e moldou o modo de vida das gerações mais jovens. Com ritmos acelerados, espectáculos luminosos e videoclips inusitados, o K-Pop tornou-se popular um pouco por todo o Mundo, com a ajuda da "Onda Coreana", que tem levado a cultura deste país peninsular até ao outro lado do planeta. Por cá, a primeira grande exposição a este género musical surgiu em 2012 com a canção Gangnam Style, de Psy, que bateu a marca dos 2 biliões de visualizações no Youtube.


FADO, COIMBRA, PORTUGAL
Habitualmente cantado a solo com acompanhamento de viola e guitarra portuguesa, o fado é um género musical tipicamente português, de carácter melancólico e saudosista, um pouco à imagem da cultura lusitana. Com raízes incertas, sabe-se que o fado começou a ser conhecido em meados do Século XIX pelas ruas de Lisboa, tendo passado a ser cantado pelos bairros da cidade. Daqui, foi levado para Coimbra, onde foi agarrado pelos estudantes que o tocam com o célebre traje académico envergado. Com executantes como o aclamado Carlos Paredes, o fado de Coimbra trata tradicionalmente de temas como a saudade e a nostalgia, bem como histórias de ciúme e crime.