sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Noirmoutier, o que é que esta ilha tem?

Tem uma aura especial, praias semi-adormecidas, produtos de excepção e Alexandre Couillon, um chef de terroir talentoso e persistente que conta com duas estrelas Michelin. Ah!, e também tem, agora, um episódio Chef’s Table que documenta a relação entre ambos.


Quando David Gelb se senta ao nosso lado na mesa do restaurante La Marine, em Noirmoutier, não consegue evitar o contentamento: “Uau, finalmente estou aqui!” Gelb é o autor da aclamada série documental Chef’s Table, cuja terceira temporada, inteiramente dedicada a cozinheiros franceses, acaba de estrear na Netflix. O nova-iorquino, de 33 anos, não realizou o episódio dedicado ao chef local Alexandre Couillon, mas acabara de o editar e estava desejoso de observar in loco tudo o que vira no ecrã.

Noirmoutier é uma ilha pacata meio parada no tempo. Situada na região do País do Loire, na costa atlântica francesa, a sua paisagem natural e o aspecto cuidado e discreto do casario dão-lhe uma aura especial. Talvez porque o local se afaste da ideia comum que temos de uma estância balnear. Por aqui não há grandes hotéis, nem o turismo de massas associado. E ainda que a população (com pouco mais de oito mil habitantes) aumente exponencialmente em Agosto, o local mantém uma certa pacatez e um ambiente familiar.

A ilha é plana e pequena (45km2) e a paisagem uma recompensa que convida a pedalar. Por isso não é estranho que se dê maior uso à bicicleta em detrimento do carro e, não raras vezes, com a família atrelada. Aliás, este é o meio de transporte ideal para vaguear por vilarejos, atravessar campos e os seus canais, as salinas, o Bois de la Chaize, o pontão da Reserva Natural de Mullembourg ou uma das graciosas praias de areia fina e mar sereno azul. Em termos geográficos, estamos quase na costa oposta ao Mediterrâneo, embora a temperatura (incluindo a da água), a cor do mar e as casas de paredes brancas e telhados de tijolo, aproximem os dois territórios. Ou, pelo menos, mais do que poderíamos imaginar.

Da terra e do mar


Sabendo o propósito da viagem, o jovem motorista que nos conduz do aeroporto de Nantes ao nosso destino surpreende-nos com um conselho. “Não deixem de provar as batatas de Noirmoutier.”

Já no quarto do hotel, ao procurar restaurante para jantar num guia gastronómico local, lá encontro a menção especial à “mais marítima das batatas”, entre uma dúzia de especialidades e produtos de referência regionais. Ao que parece, os solos arenosos adubados com as algas recolhidas na maré baixa conferem ao tubérculo uma característica peculiar: o sabor ligeiramente salino. Entre as variedades cultivadas na ilha, destaca-se a la bonnote, tão valiosa e apreciada que o guia alerta para que se verifique a existência do logótipo da cooperativa agrícola local na embalagem, não vá estar-se a comprar uma imitação. É que a “Rolls Royce” da terra de Noirmoutier é recolhida apenas durante uma dezena de dias, em Maio, e o seu período de conservação é curto.

A noroeste da ilha, em L’Herbaudière, encontramos o principal porto de pesca local. Em tempos foi um grande centro da indústria conserveira de sardinha. Todavia, a escassez deste peixe encerrou o negócio e, hoje, os 60 barcos de pesca existentes dedicam-se, sobretudo, à apanha de variedades nobres, como o robalo, a dourada ou o linguado, e ainda a lagosta ou o lavagante.

Um pouco por todo o lado vêm-se placas toscas a anunciar a venda de ostras. Os registos revelam a sua introdução na área no inicio do século XIX, mas a actividade começou a desenvolver-se sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. De sabor elegante e levemente iodado, as ostras de Noirmoutier apresentam uma tonalidade azulada, devido à micro-alga blue navicula que se desenvolve na zona. Estas ostras são “semeadas” no seu habitat natural, em redor da ilha, onde permanecem durante três anos. Depois desse período retiram-se para valas e passam à fase de maturação, sendo afinadas de acordo com as características pretendidas por cada produtor. Todos os anos saem de Noirmoutier cerca de mil toneladas do molusco. Contudo, este é ainda um trabalho com uma forte componente artesanal, tal como acontece com a actividade levada a cabo nas salinas de onde se extrai a delicada e clara flor de sal, rival da famosa vizinha de Guérande.

Comida simples

A consulta do guia de restaurantes locais leva-me para o centro histórico de Noirmoutier-en-L’Île, a principal localidade. É quinta-feira e, apesar de estarmos em época alta (Julho), são vários os restaurantes fechados. É o caso do Le Cass’poï, junto ao castelo, que oferece uma cozinha de mercado despretensiosa com produtos de temporada.

Procuro um lugar simples, dado querer guardar-me para a cozinha de Alexandre Couillon, do La Marine, no dia seguinte. A uma centena de metros dali, um pequeno bistrot, o Le Petit Blanc, dá sinais de vida. Ainda é cedo. A França joga nessa noite contra a Alemanha a possibilidade de disputar a final do europeu contra Portugal e, talvez por isso, consigo um dos poucos lugares disponíveis. O lugar serve comida lionnaise e é sem dúvida um bistrot: espaço apertado e aconchegante; ele na cozinha e ela na sala; menu fixo, escrito na ardósia, com seis ou sete propostas (para pedir duas ou três) e vinho da casa. Escolho a terrina de fígado de porco com pistácios e molho bearnaise, de entrada; um filete de dourada com gratinado de beringela como prato principal e o gâteau lyonnais et son coulis d’abricots de sobremesa. Bolo esponjoso com calda de açúcar e amêndoa, pera e molho de alperces, combinam? Sim, bastante. Tal como a experiência no geral. No fundo, era o que pretendia nessa noite: comida simples, bem elaborada e com sabor, vinho a jarro potável e serviço diligente. Tudo por menos de 30 euros.

Deixo o restaurante e pedalo até casa, ainda com tempo de sobra para parar num café. Acompanho um pouco do jogo, mas o local está lotado e faço-me ao caminho antes de terminar. A meio do percurso, soam foguetes de alegria. A França está na final. Que pena não ficar para ver esse jogo...

Couillon e a ilha no prato

As actividades ligadas à terra e ao mar, bem como o turismo, têm ajudado a reter uma boa parte da população de Noirmoutier durante todo o ano. É o caso dos Couillon.

O pai fora marinheiro e pescador e a mãe costureira. Quando Alexandre tinha seis anos, a família comprou um café a que chamaram La Marine. Abriam apenas no Verão e serviam pratos para turistas: peixe, marisco e tarte de maçã. Eram pratos bem simples, reveladores de que a mudança de vida dos progenitores tinha sido mais uma oportunidade surgida do que propriamente uma vocação.

Alexandre Couillon viveu na ilha toda a sua infância e boa parte da adolescência de uma forma muito livre, “como um Tom Sawyer”. Estudar não era a sua praia, o que o levou cedo, com 17 anos, a procurar um emprego de forma a canalizar toda a sua energia. Acabou por bater à porta de um chef bretão que lhe ensinou o ofício e lhe deu disciplina. Foi esse o momento da viragem, o momento em que decidiu que era aquela a direcção que queria tomar.

Um dia, estava a trabalhar na cozinha de Michel Guerárd, em Eugénie-les-Baines (o Les Prés d’Eugénie, três estrelas Michelin), quando recebeu uma chamada. Era o pai. Queria dizer-lhe que estavam a pensar vender o La Marine, mas que se quisesse poderia ficar com o restaurante. A sua reacção imediata foi dizer que não, uma vez que pretendia continuar a evoluir ao lado de grandes chefs. Contudo, ficou a matutar sobre o assunto e, com a insolência própria de quem tinha pouco mais de vinte anos, começou a pensar que aquela talvez fosse uma boa ocasião para se afirmar e, quem sabe, colocar Noirmoutier no mapa gastronómico. Fez então um pacto com a sua mulher, Céline, natural da ilha como ele e namorada desde os tempos da escola. Ficariam durante sete anos. Se passado esse tempo não resultasse, pegava nas coisas e procuraria emprego noutro restaurante. Assim foi. Ligou ao pai e seguraram o restaurante. Porém, não tinham grande noção no que se tinham metido. O francês queria fazer uma cozinha de autor mas Noirmoutier não era um destino gourmand e, após o Verão, os turistas desapareciam. Como se não bastasse, Couillon sentia-se perdido, sem um rumo a seguir.

Apesar das dificuldades, o restaurante foi-se impondo, ainda que tenuemente. Continuavam a trabalhar que nem uns loucos, sobretudo fora da estação alta, quando o staff era reduzido ao mínimo. Tinham passado seis anos e estavam prestes a desistir. Porém, quando se aproximavam do período limite chegou a boa notícia: o guia Michelin acabara de lhes atribuir uma estrela.

O galardão permitir-lhes-ia respirar, mas Alexandre Couillon não estava contente com a sua cozinha e começou a questionar-se. Achava que o que estavam a fazer era muito clássico, queria repensar tudo e ter uma proposta mais contemporânea e criativa.

Uma das decisões que tomaram foi a de construir um novo espaço, sendo que o antigo mudaria de nome, passava a chamar-se La Table d’Elise e teria uma proposta mais tradicional e acessível. Todavia, continuava a faltar uma ideia central para a cozinha do novo La Marine. Surgiam pratos novos, mas alguns deles confusos, com muitos ingredientes. Couillon continuava insatisfeito. Havia que simplificar e encontrar um caminho. Até que um dia, um erro feliz mudou tudo. Pedira a um estagiário que fizesse um caldo de lula mas esquecera-se de lhe dizer que deveria retirar a tinta, o que acabou por dar origem a um caldo intenso e escuro. Ao olhar para o resultado, o chef francês teve uma espécie de epifania: começou a lembrar-se do derrame do petroleiro Erika, um caso dramático que anos antes acontecera na ilha, com graves consequências nos recursos marítimos da área.

Couillon pegou no caldo, reduziu-o até criar um molho denso e deitou-o sobre uma ostra. Chamou-lhe “ostra negra Erika”. A combinação agradou-lhe, quer em termos de sabores, quer visualmente. Estava encontrado o caminho: criar e confeccionar pratos mais simples, com ingredientes locais e que contem a história da ilha. Em 2013, o La Marine conquistou a segunda estrela Michelin e Noirmoutier entrou no mapa.

À mesa do La Marine

A ostra Erika teria de ser um prato obrigatório no almoço entre a imprensa e David Gelb. De facto, trata-se de uma proposta extraordinária. Na sua apresentação minimalista (negro sobre branco), na textura densa (molho) e delicada (ostra) e no sabor intenso, mas elegante. Tinha sido precedida de outro prato brilhante, “conchas e crustáceos a bordo”, um caldo perfeito com os melhores mariscos que se apanham nas águas da região. Como se não bastasse, ainda chegou à mesa um lavagante grelhado, com cenoura e capuchinha. Porém, Alexandre Couillon também possui grande afinidade com peixes ditos menos nobres da zona, como é o caso da cavala — que comemos fumada e servida numa espinha limpa e ainda (triturada) em “trufa” com café —, ou do badejo de textura delicada, que nos serviu com curgete, melão e leite de cabra.

Os produtos da terra são igualmente a sua grande paixão, ou não tivesse uma horta própria que fornece ao restaurante quase tudo o que precisa. Não é a época da la bonnote, mas a batata teria obviamente de estar presente no menu, fosse numa textura cremosa, num dos snacks iniciais, ou como acompanhamento de uma pintada. Outro vegetal que merece a preferência de Couillon é a beterraba. No almoço tivemos direito a ela como elemento principal de numa pequena tartelette e, também, como acompanhamento de uma lula de textura e sabor exemplares.

Os pratos do chef francês seguem a linha evolutiva de uma cozinha mais naturalista centrada no produto e não tanto na técnica. Quer dizer, a técnica e uma certa complexidade estão lá, mas não para serem exibidas na cara do cliente. A parte doceira segue o mesmo conceito de união com a ilha. Por exemplo, uma das sobremesas, “balada no Bois de la Chaize”, é uma representação do bosque local, com um gelado que leva resina de pinheiro, servido sobre “musgo” (sponge cake) de chá verde e “terra” de chocolate.

Na conversa com David Gelb (ver texto nestas páginas), o autor de Chef’s Table refere que um dos critérios para fazer parte da série se prende com a personalidade do chef e de uma boa narrativa que este tenha para contar. Alexandre Couillon tem essa história e coloca-a no prato com mestria. A mesma mestria com que Gelb e a sua equipa a servem no ecrã.

GUIA PRÁTICO

Como ir

Tanto a TAP como a Transavia voam regularmente para Nantes. Daqui a Noirmoutier distam 77km, que se percorrem de carro em pouco mais de uma hora ou de autocarro em 1h40. Na ilha existem alguns transportes públicos, mas a bicicleta é o meio ideal de locomoção.

Onde dormir
Não há grandes hotéis de luxo ou de cadeias conhecidas, mas há vários lugares confortáveis e com um certo charme, como o Ancre Marine, o La Chaize ou o La Villa en l’Île.

Onde comer
O La Marine (5 Rue Marie Lemonnier; tel.:02 51 39 23 09) é sem dúvida o principal restaurante da ilha. Contudo, para além deste duas estrelas Michelin, a ilha conta com um conjunto de pequenos restaurantes de cozinha simples e preço mais acessível que servem produtos da região.

A Fugas viajou a convite da Netflix

Fonte: Fugas

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Rabat, uma claríssima luz atlântica

Património da Humanidade, a capital de Marrocos é uma cidade ecléctica, em que expressivas marcas coloniais e europeias se mesclam com a atmosfera árabe.


Tahar Ben Jelloun, o escritor marroquino mais conhecido na Europa — onde, aliás, reside há várias décadas —, assinou mais do que um artigo sobre as chamadas primaveras árabes. Habituámo-nos a ler nesses textos referências recorrentes à “excepção marroquina”, entendida como um conjunto de circunstâncias que o viajante atento será tentado a não limitar às dimensões política e económica.

O autor de L’enfant de sable e de La nuit sacrée, prémio Gongourt em 1987, assinalou de forma enfática o papel activo — e eficaz — do actual monarca, o rei Mohamed VI, na reacção aos movimentos de contestação que emergiram no país em Fevereiro de 2011, através da proposta de reformas que foram bem acolhidas pelos diferentes sectores da sociedade. Não serão aquelas as únicas circunstâncias a pesar na serenidade social que caracteriza, de uma forma geral, este Marrocos em permanente equilíbrio entre o que esteia as identidades tradicionais e a modernidade, e que acolhe, tão hospitaleiramente e como sempre, os viajantes.

Diz Tahar Ben Jelloun que as convulsões que condicionam ou martirizam uma parte do mundo árabe na actualidade foram sabiamente contornadas neste recanto do Magreb: “Penso que as mudanças propostas são históricas; concordo com a opinião dos observadores internacionais que se manifestaram na comunicação social. Marrocos avança permanecendo uma excepção no mundo árabe e muçulmano”.

Sentado na esplanada do Café Hollywood, na Avenida Allal Ben Abdellah, em pleno coração do muito bem conservado quartier “colonial” de Rabat, dou uma vista de olhos à resenha dos principais temas abordados pelo Le Matin na última semana de Abril. Mesmo ao acaso, não é difícil destacar dois deles, em que sinais da modernidade do país e o desejo de marcar com veemência uma posição oficial em torno de questões candentes no mundo árabe são evidentes: o primeiro refere-se a um estudo que chama a atenção para a necessidade de se debater publicamente a discrepância de salários ferida pela desigualdade de género; o segundo tem a ver com a visita de Estado de Mohamed VI aos países do Golfo.

Sem surpresa, naturalmente, instalado na região natal de Ibn Batuta, país que absorveu a riquíssima herança cultural do Al-Andaluz, e que em momento algum negligencia velhas tradições hospitaleiras e cosmopolitas, leio uma das declarações mais eloquentes do monarca marroquino em Riad a propósito de certas representações contemporâneas do Islão: “… o terrorismo afecta a reputação do Islão e dos muçulmanos. Esta situação exige abrir um debate franco e profundo entre os diferentes ritos para sanear as mistificações, para esclarecer a verdadeira imagem do Islão e reactivar os valores de tolerância que perfilhamos”.

Deixo o jornal sobre a mesa, caminho até ao Hotel Royal, poiso habitual em estâncias na capital marroquina, e preparo-me para uma imersão numa das mais eclécticas cidades do Magrebe, onde o espaço urbano concilia de forma harmónica as heranças arquitectónicas coloniais e a atmosfera efervescente das medinas árabes, com as suas infatigáveis azáfamas comerciais e formigueiros de gente.

Um rouge de Meknès
De Oujda a Tiznit, de Tânger a Marraquexe, de Meknès a Sidi Ifni, todas as cidades de Marrocos são únicas, cada uma se mostra vestida de uma ou outra peculiaridade arquitectónica, topográfica, cénica, cultural. E em muitas delas a integração de património arquitectónico em espaços urbanos renovados ou submetidos à experiência de palimpsestos, geração após geração, é uma constante. Esse aspecto coincide, aliás, com um dos critérios que sustenta a inscrição de Rabat — de certas parcelas e de alguns monumentos — na lista da UNESCO. O urbanismo da capital marroquina concilia um planeamento modernista com a integração de heranças monumentais históricas e arquitectónicas. As realizações arquitectónicas e urbanísticas surgem, aliás, destacadas na fundamentação da UNESCO para a eleição de Rabat em 2012 como Património Mundial: “A cidade nova representa um dos maiores e mais ambiciosos projectos do século XX em África, provavelmente o mais completo”.

Para o viajante que acabe de desembarcar de comboio, chegado de Casablanca ou de Tânger, na central Gare Rabat Ville, o cenário que logo ali se ilumina (vai fiel o verbo, dada a claríssima luz) revela excelentes vestígios dos sucessos históricos daquela que será uma das mais agradáveis das cidades do Magrebe — Rabat aparecia no início deste ano como a segunda cidade da região em termos de qualidade de vida, logo atrás da capital tunisina (116.º e 113.º lugar, respectivamente).

A Avenida Mohamed V é um eixo estendido até à muralha da Medina, bordejado por uma esplêndida plêiade de edifícios coloniais, boa parte deles preservando feições modernistas e muitos pormenores decorativos de traço art déco. É a face europeia da cidade, mas um olhar mais atento facilmente descortina elementos árabes, a tentação da geometria, as varandas delicadamente bordadas com mouriscas minúcias que fazem pensar no legado do Al-Andaluz. Rabat, cidade que tem fundas raízes no século XII, preferida para capital pela dinastia almóada, foi um principado que herdou memórias históricas andaluzas. Sublinha a UNESCO, precisamente, que a apropriação de todos esses sinais no planeamento urbano conduziu a uma preciosa síntese em que confluem elementos culturais diversos, islâmicos, hispano-magrebinos e europeus.

No caminho para a Medina, que se pode fazer em certos trechos sob a sombra de arcadas, há edifícios administrativos de volumetria disciplinada, em ambos os lados da avenida, hotéis, jardins, fiadas de palmeiras e largos passeios. No horizonte, minaretes de mesquitas e a branca cúpula da catedral cristã de São Pedro, lá para os lados da Place Al Joulane.

Nas margens da Avenida Mohamed V, e a cinco minutos da Medina, estende-se a cidade nova, planeada e materializada no início do século XX, entre 1912 e 1930, quando Marrocos se tornou um protectorado francês. É uma área não muito extensa, que alastra para leste, quase até ao rio Bou Regreg, cuja malha se tece com algumas grandes avenidas, a Abdelmoumen, a Moulay Rachid, a Alaouiyin, a Patrice Lumumba, a Yacoub al Mansour, a Avenida de Argel, a Franklin Roosevelt. Numa rede de ruas de nomes evocativos da história e da geografia de Marrocos, do Magreb e do norte de África — Tunes, Agadir, Tripoli, Beni Mellal, Tânger, Tafraoute, Azrou, Ifrane, Tetoua — percorremos passeios povoados por muitas lojas de pequeno comércio, mercearias, lojas de roupa e cafés, alguns grandes hotéis e, principalmente, habitados por uma espécie de nonchalance, uma descontracção que dificilmente diríamos poder sobreviver numa capital.

O metro de superfície, inaugurado há meia dúzia de anos, liga esta zona com a Torre Hassan e o mausoléu do monarca antecessor de Mohamed VI, e, mais adiante, com a entrada da Medina, prolongando depois a sua rota até ao pólo universitário de Madinat Al Irfane, a sul da capital. Mais ou menos a meio, pense-se em desembarcar junto à porta de Bab er-Rouha para apreciar a amplíssima artéria que ali mesmo se inicia, a Avenida an-Nasr, riscada ao modo dos Champs Élysées e rodeada por folgados passeios e um muito estimável arvoredo apelativo a caminhadas sob a protecção da sua densa sombra. Ficou apresentado o tramway, útil para quem se enfade de palmilhar cidades e, também, para excursões até ao outro lado do rio, até Salé, povoado mais modesto, mas depositário de uma singular medina e de uma incomparável vista sobre Rabat e o Kasbah des Oudaias.

Mas o metro de superfície pode dispensar-se, todavia: no núcleo central da ville nouvelle de Rabat as distâncias são tão breves quão aprazíveis os ritmos, os cenários e a hospitalidade das gentes. E para se repousar das canseiras dos tantos caminhares que a capital solicita, não faltam “gaulesas” pastelarias, onde, além dos batidos de fruta tropical, se encadeia doçaria da antiga metrópole com sabores magrebinos em saborosas invenções.

Mais ainda, para quem suponha a modernidade apenas com certas vestes e ao cosmopolitismo queira atribuir hábitos que se presume serem apenas de outras paragens: em alguns bares, e não só de hotéis frequentados pela burguesia local (como o Balima, na Mohamed V), se pode degustar uma cerveja, ter à mesa um rouge da comarca de Méknès (Appellation d’origine contrôlée Coteaux de l’Atlas, eis uma escolha possível) ou outra beberragem do género. A tradução é que unicamente apetrechados de alta dose de provincianismo nos poderemos admirar do “fenómeno”.

Não se poderá entender aqui, também, e sem ser necessário fazer o pino, um pedaço daquela herança cosmopolita, que alguns mantêm o costume de caracterizar como de “tolerância”, do antigo Al-Andaluz?

O prazer do ar e da luz
É fácil ceder à ligeireza do lugar-comum, a do salto no tempo atravessando uma rua, uma muralha, uma avenida — no caso, a Hassan II, por onde circula o “futurista” tramway de Rabat e que separa fisicamente a ville nouvelle da Medina, constituinte, também, da área classificada pela UNESCO. A modernidade, tal como os seus antecessores ritos, acha-se tanto fora como dentro da Medina, estampada ou oculta na miríade de imagens que se oferecem ao olhar em trânsito do viajante. Que se haverá de pensar à conta dos jardins de feição andaluza que povoam a cidade — como o Nouzhat Hassan — ou da pitoresca exibição de peças de picante lingerie, penduradas à sombra dos toldos da velha Medina, a três, quatro passos da almádena de uma pequena mesquita?

O velho bairro árabe, muralhado, não é muito diferente de outros seus congéneres marroquinos: um punhado de ruas e ruelas e becos, muito menos labiríntico que o de Fez, de feição mais recente mas com souks igualmente povoados de grande animação. Por todo o lado há rios de gente num vaivém sem fim, por todo o lado se negoceia quase tudo, ou apenas um pouco menos do que isso, mas ainda assim — e como escreveriam os espantados viajantes quinhentistas — obra de mil ou mais mercadorias, e entre elas, em generosa abundância e variedade, legumes e verduras e frutas e roupas e doces e frutos secos e pistachos e tâmaras e amêndoas e panos de todas as cores e artesanato em couro e babuchas garridas e acomodáveis a todos pés e tambores e qraquebs e darboukas e peças de cerâmica de Safi e montinhos rigorosamente piramidais de azeitonas de variados temperos e cores e tamanhos.

E por ali se pode ainda dar com toda a sorte de vendedores hábeis no verbo e no sorriso, e alguns deles até bem a jeito, como os discretamente sentados à saída dos restaurantes ou onde calha, que destas lógicas ficará sempre o forasteiro ignorante, a mercar cigarros avulsos que tão por bem vêm quando uma tagine nos sobe ao coração ou queremos saborear melhor a maresia e o panorama lá em cima, no fortim almóada do Kasbah des Oudaias, as vistas da foz do Bou Regreg, o Atlântico, os barquinhos dos pescadores, Salé na outra margem, as agulhas dos minaretes das mesquitas a tentar chegar ao céu e, imitando-as, os pares de namorados liberalmente indiferentes à paisagem.

Para lá chegar não deixámos apenas para trás a cidade nova, os Jardins Andaluzes, a velha mesquita do século XII, a Medina e o seu rumor incessante de vida; atravessámos também o pequeno labirinto de ruelas do Kasbah des Oudaias, onde a claridade, ofuscante como em toda a cidade, é filha das núpcias entre o branco do casario e a luz meridional e atlântica, porventura nada diferente da que Delacroix pintou (com a desesperança de ser capaz de o fazer, confessou) nos seus oitenta quadros africanos.

O artista fez o seu périplo marroquino, em 1832, entre Tânger e Meknès, não desceu a Rabat, é verdade, foram outras as medinas e as gentes que fixou nos esboços e nas telas. Mas o que rabiscou no seu cahier de voyage, ao lado dos esquissos etnográficos, podia ter sido inspirado nesta inebriante correnteza de imagens que nos rodeia, da Medina ao Kasbah des Oudaias, nesta cidade que é feita, também, de luz: “É um lugar criado para os pintores, um lugar onde o belo está em toda a parte… onde o belo se passeia pelas ruas… sinto-me entontecido com tudo o que vi… sinto-me neste momento como um homem que sonha… a vida nestes países meridionais é tonificada pela sensação de prazer do ar e da luz…”. [...]

GUIA PRÁTICO

Como ir
Há voos directos a partir de Lisboa para Casablanca e ligações ferroviárias frequentes entre o aeroporto e a estação Casa Voyageurs, no centro da cidade. Daí para Rabat, as ligações são constantes, com tempos de viagem que variam entre uma hora e hora e meia. A partir de Lisboa as tarifas para Casablanca começam nos 190 euros. Outra possibilidade é voar através de Madrid para qualquer uma das duas cidades com uma companhia aérea low cost, embora nem sempre se consiga obter tarifas aéreas vantajosas.

Quando ir
À excepção do Inverno (com maior pluviosidade, mas ainda assim com temperaturas variando entre os 7 e os 17 graus em média), todas as outras épocas são adequadas. Ainda que durante o Verão os picos de calor raramente ultrapassem os 30 graus, os dias de Primavera (Abril-Junho) e de Outono (Outubro a meados de Novembro) são frequentemente os mais agradáveis.

Onde ficar
Duas sugestões, uma para a ville nouvelle, muito perto da Av. Mohamed V e da estação ferroviária central, e outra para fruição do ambiente da Medina: o Royal Hotel (www.royalhotelrabat.net) e o Riad Oudaia (www.riadoudaya.com).

Informações úteis
Os cidadãos portugueses não necessitam de visto, bastando apresentar o passaporte à chegada. A autorização de permanência no país tem, habitualmente, uma validade de três meses. www.visitmorocco.com.


Fonte: Fugas

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Doze spas nacionais trazem Ouro dos World Luxury Spa Awards

Os World Luxury Spa Awards 2016 premiaram 12 spas portugueses. O Sayanna Wellness do EPIC SANA Algarve foi o mais distinguido, vencendo nas categorias “Global Winner – Luxury Fitness Spa” e “Luxury Resort Spa – Portugal”, bem como o Grande Prémio “Overall Global Winner”.


O Conrad Algarve foi também um Global Winner, mas em “Luxury Country Spa”. Quanto aos vencedores de âmbito europeu, foram premiados o CitySpa Lisbon (“Luxury Day Spa”), o Vidago Palace Thermal Spa (“Luxury Mineral Springs Spa”) e o Gspa do Altis Grand Hotel (“Luxury Emerging Spa”). A este último foi ainda entregue o troféu de melhor “Luxury Fitness Spa” de Portugal.

No âmbito nacional foram igualmente premiados o Ayurveda cure center by Birgit Moukom (“Best Spa Manager”), o Sayanna Wellness do Myriad by SANA Hotels (“Luxury Boutique Spa” e “Luxury Urban Escape”), o Spirito Spa do Sheraton Lisboa (“Luxury Day Spa”), o Magic Spa do Pestana Park Hotel and Casino (“Luxury Destination Spa”), o spa do Porto Bay Liberdade (“Luxury Emerging Spa”), o Bspa by Karin Herzog do Altis Belém (“Luxury Hotel Spa”) e ainda o Stone Spa (“Luxury Wellness Spa”).

Os World Luxury Spa Awards são entregues com base na qualidade de instalações e serviço prestado pelos hotéis, sendo que o tamanho das propriedades não tem qualquer peso nas fases de nomeação e votação. Entre os objetivos destaca-se a celebração do serviço de excelência, encorajar a competitividade na indústria hoteleira de luxo e alertar para o valor e importância da prestação de um serviço de qualidade aos hóspedes.


Fonte: Welcome

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O trivago escolheu os 10 melhores hotéis boutique de Portugal

Os hotéis Bela Vista (Algarve), Praia Verde (Algarve) e Fortaleza Do Guincho (Lisboa) integram, por esta ordem, a lista dos 10 Melhores Boutique Hotels de Portugal, elaborada pelo trivago.



Trata-se de espaços exclusivos, com grande caráter e individualidade, pautados pelo luxo, destaca este motor de busca de hotéis, que atribui o 4.º, 5.º e 6.º lugares, respetivamente, ao Cascade Wellness & Lifestyle Resort (Lagos), ao Areias do Seixo (A dos Cunhados) e ao LX Boutique Hotel (Lisboa).

Quer esteja à procura de um local charmoso no centro da capital, junto às praias ensolaradas do Algarve, nas icónicas margens do Rio Douro ou mesmo na pitoresca Ponta do Sol, na Madeira, todos estes hotéis gozam de incríveis vistas, sublinha.

O Top 10 dos boutique hotels do país fica completo com o Tivoli Hotel (Lisboa, 7.º lugar), Farol Design Hotel (Cascais, 8.º), 1872 River House (Porto, 9.º) e Hotel da Vila (Madeira, 10.º).


Fonte: Welcome

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Dez grandes viagens estrada fora

Tire férias e faça-se à estrada para dez das grandes viagens de carro que pode cumprir pela Europa a partir de Portugal.

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1. Porto-Amesterdão: A rota dos impressionistas

São pouco mais de 2000 quilómetros, mas convém fazê-los com tempo e vagar, porque pelo meio tem muito que ver. Sugiro que siga a rota do Douro até Valladolid ou à bela cidade de Burgos. Depois aponta a sua montada ao País Basco francês e a Biarritz.
Como Bordéus está a caminho e passa pela mais famosa região vinícola do mundo, vale a pena demorar um pouco e visitar alguns dos célebres châteaux. A viagem pelo Centro de França e pelas suas regiões mais campestres continua a ter um apelo único: cidades como Poitiers, Limoges, Tours, Orléans e até Bourges devem fazer parte do seu itinerário até à Cidade Luz. 
Ir a Paris e não ficar lá a perder tempo nos bistrots, no Quartier Latin ou nalguns museus é mesmo um enorme desperdício de tempo de qualidade na vida. Entregue dois ou três dias à joie de vivre parisiense antes de rumar ao Norte de França e às Ardenas. Na Bélgica, programe a sua rota mais junto à costa, com Brugges e Antuérpia a merecerem paragem e visita atenta. Finalmente, desça abaixo do nível do mar e percorra a costa dos Países Baixos até Amesterdão – aí, já sabe, faça o que lhe der na real gana…
Distância: 2025 km
Tempo de viagem: 22 horas
Custo estimado: 271 €
Percurso recomendado: Porto- Valladolid- Burgos - Biarritz - Bordéus - Tours - Paris - Antuérpia – Amesterdão

2. Lisboa-Budapeste: Nas botas de Napoleão até ao império austro-húngaro

Uma longa viagem até ao coração do império austro-húngaro, subindo pela Península Ibérica no trilho das invasões napoleónicas para depois franquear os Alpes como Aníbal, “O cartaginês” e os seus elefantes, apontando a Viena para a marcha final sobre Budapeste. 
Deve ir saboreando a viagem e parando em Leão e Castela até ancorar em Biarritz. Depois, uma pequena etapa pelas vinhas da região de Bordéus, para cruzar as belíssimas paisagens do centrão de França, com passagem em Clermont Ferrand e paragem obrigatória em Lyon, capital da nouvelle cuisine
Segue-se a Suíça dos cantões, chocolates, belos lagos e dos imponentes Alpes, feitos pela encosta norte. Breve incursão à Alemanha para comer umas salsichas e beber uma boa cerveja bávara em Munique, retemperando forças para a etapa final até Viena, a musical, cara e monumental capital da Áustria. Finalmente, a viagem pelos vales verdejantes de Música no Coração até à capital dos magiares – a bela Budapeste, onde um banho quente nas termas é o melhor prémio para quem corta a meta. Uma road tripcheia de história, belas aldeias, monumentais cidades, estradas cénicas e paisagens deslumbrantes.

Distância: 3074 km
Tempo de viagem: 31 horas
Custo estimado: 445 €
Percurso recomendado: Lisboa - Valladolid - Biarritz - Bordéus - Lyon - Genebra - Zurique - Munique - Viena – Budapeste

3. Barcelona-Bilbao: Com o mar sempre à janela 

Esta não começa exactamente em Portugal, mas faz toda a costa da Península Ibérica. É uma espécie de “costa à cuesta”. Desde a mediterrânica, quente e festiva cidade condal de Barcelona até ao frio mar da Cantábria e à capital dos bascos. Pelo caminho percorre-se toda a costa sul de Espanha pela auto-estrada do Mediterrâneo que dá acesso às famosas estâncias turísticas, mas também a cidades e vilas pitorescas, como Almeria, por exemplo. Paragem obrigatória para visitar o deserto de Tabernas e os estúdios onde foram gravados inúmeros western-spaghettis
Depois mantém-se o mais próximo possível da costa até Cádiz e Huelva para entrar em Portugal pela Via do Infante até Faro. Um passeio de barco pela ria Formosa e uns mergulhos para ganhar forças para subir pela costa vicentina de Sagres a Sines, com paragem para um lanchinho de percebes em Vila do Bispo. Mais dois dias para percorrer a costa portuguesa em ritmo acelerado, porque aqui pode ir facilmente em qualquer altura do ano. 
Adeus a Portugal em Caminha, para percorrer a costa da Galiza, com paragens obrigatórias em Vigo e na Corunha. Delicie-se com as paisagens fantásticas das estradas costeiras e com os mariscos galegos, a merecer peregrinação. Finalmente, cumpre-se a rota do Cantábrico, primeiro com uma paragem na vibrante e magnífica cidade de Oviedo, a jóia das Astúrias, para finalmente entrar em território basco com visita ao Guggenheim de Bilbao e final de jornada na burguesa San Sebastian. Não tente fazer esta no pico do Verão, porque se vai arrepender. Junho é uma boa aposta.
Distância: 2962 km

Tempo de viagem: 36 horas

Custo estimado: 356 €

Percurso recomendado: Barcelona - Valência - Almeria - Cádiz - Faro - Sines - Lisboa - Caminha - Vigo - Corunha - Oviedo - Bilbao - San Sebastian


4. Serra da Estrela-Alpes: E passagem pelos Pirenéus

Uma viagem para quem não tem vertigens e gosta de ziguezaguear por estradas de montanha. Da serra da Estrela aos Alpes com passagem pelos Pirenéus. Uma road trip de Inverno, mas que também pode ser feita na Primavera ou até no Verão, onde a altitude dá frescura. 
Com partida do ponto mais alto de Portugal continental, a Torre da serra da Estrela para efeitos simbólicos pode traçar uma recta pela grande Mancha e pernoitar em Zaragoza para depois iniciar a travessia dos Pirenéus por Andorra-a-Velha ou por Jaca. 
Se quiser dormir uma noite nos Pirenéus, o Vale de Benasque parece um Shangri La encantado, um paraíso protegido pelos altos picos pirenaicos. Inicia depois a descida até aos médios Pirenéus franceses e à acolhedora cidade de Toulouse. Daí atravessa o Sudeste de França até ter os primeiros maciços alpinos no horizonte. Grenoble ou Lyon são boas cidades para retemperar forças e iniciar a escalada dos Alpes franceses, imaginando o esforço prodigioso dos ciclistas da Volta a França naquelas etapas para super-homens. Pode e deve demorar o seu tempo a percorrer a cordilheira dos Alpes, quer pela vertente Norte, quer pela vertente Sul. Aí a escolha é sua, ou prefere falar alemão ou francês e italiano. 
Marque o final da sua odisseia alpina para Innsbruck, cidade-planalto e que dá acesso a algumas fabulosas estâncias de esqui. Se ainda tiver energia e dias livres, mais duas centenas de quilómetros até Salzbugo merecem o derradeiro esforço.
Distância: 2404 km

Tempo de viagem: 27 horas

Custo estimado: 351 €

Percurso recomendado: Covilhã - Madrid - Zaragoza - Toulouse - Grenoble - Vaduz – Innsbruck


5. Faro – Marraquexe: África aqui tão perto

Esta não é uma road trip europeia, mas uma proposta irrecusável para ir a África e ao deserto, a uma distância muito inferior às outras rotas. Distância inferior e custos inferiores, mesmo considerando o preço do ferry boat que pode apanhar em Algeciras, depois de fazer uma etapa sem paragens a partir de Faro. 
Uma vez tratados os procedimentos alfandegários está já em solo marroquino e em África e deve aproveitar para passar a primeira noite em Tânger, cidade que foi um famoso refúgio para escritores, pintores e artistas. Pode levar no bolso o caderno de desenhos de Delacroix com as suas impressões marroquinas. A partir de Tânger tem duas alternativas para fazer a viagem até Marraquexe – ou vai pela costa, repleta de sinais da presença portuguesa, ou vai pelo interior e pelo Atlas para poder ir ver um pôr do sol no deserto. Também pode ir por um lado e vir pelo outro, desenhando assim o grande anel de viagem em Marrocos. 
Na mais movimentada auto-estrada costeira pode e deve passar uma noite em Casablanca e ir ao Rick’s Cafe que está quase como Humphrey Bogart o deixou. Depois segue até Safi e daqui sempre pela belíssima estrada costeira, com o mar na janela direita do carro. Próxima paragem obrigatória, Essaouira, cidade fundada por portugueses e uma das mais charmosas estâncias balneares do país. De Essaouira a Marraquexe são apenas três horas de viagem e pode chegar bem a horas de beber um thé à la menthe no Hotel Mamounia (o preferido de Churchill) ou uma laranjada ao pôr do sol da vibrante Praça Jemaa El Fna, Património da Humanidade. 
Mas para sentir a verdadeira atmosfera berbere de Marrocos e se deslumbrar com grandes estradas, paisagens e cidades monumentais o melhor percurso é a partir de Tânger seguir para Leste em direcção ao deserto, com paragens recomendadas na cidade azul de Chefchouaen, erguida num dos picos das montanhas do Riff. Daí aponte os cavalos às cidades imperiais de Meknès e Fez, com a sua labirintica medina a desafiar o seu sentido de desorientação. 
Para ter um “cheirinho” do deserto deve reservar dois dias para visitar as fantásticas dunas do Erg Chebbi e daí seguir para sul e para Ouazarzate pela estrada que vai passar pela incrível garganta do Todra. Em Ouazarzate, depois de visitar os estúdios de cinema onde foram gravados grandes épicos de Hollywod, segue-se a transposição do Atlas, numa viagem desafiante e que exige toda a atenção do mundo, já que conduzir em Marrocos é só por si um desafio. A rota dos kashbahs vai levá-lo a belas cidades como Ait Benhaddou, onde foram filmadas cenas de O Gladiador, para finalmente chegar à cosmopolita e esfuziante cidade vermelha de Marraquexe. 
África aqui tão perto. Do que está à espera?


Distância: 1025 km

Tempo de viagem: 12 horas

Custo estimado: 145 € (sem ferry boat)

Percurso recomendado: Faro - Algeciras - Tânger - Chefchouaen - Fez - Erg Chebbi - Ouazarzate – Marraquexe


6. Lisboa - Nápoles: La dolce vita do Atlântico ao Mediterrâneo

Se gosta de mar e de estradas costeiras, esta pode ser a mais espectacular road trip para um Verão tórrido, desde que opte por fazer a viagem sempre junto à costa, do Atlântico ao Mediterrâneo. Percorrer o Sul de Espanha é já em si uma grande road trip. Sugiro que faça duas ou três paragens pelo caminho – por exemplo em Málaga (terra de Picasso), Almeria (terra de western spaghettis e do único deserto da Europa) ou em Figueres (terra de Dali a norte de Barcelona). Quando passar a fronteira com França continue a seguir a linha de costa até Marselha e o seu gigantesco porto e bas fond nocturno. Depois vista o seu melhor fato de linho e meta o borsalino estiloso e rume à atraente e milionária Côte d’Azur. 
Ficar em Cannes, Nice ou até no Mónaco vai fazê-lo sentir uma estrela de cinema, e só isso vale a pena. Segue-se depois a bela Itália, pela Riviera italiana, que já viu dias de maior fausto, mas que ainda assim tem todo o encanto e monumentalidade de cidades como Génova.
Deve arranjar tempo para visitar as Cinque Terre, um dos mais belos pedaços de orla costeira da Europa, com vilas piscatórias alcandoradas como presépios sobre o mar. Ir beber um Martini a Portofino também só fica bem no seu instagram.
Antes da última etapa deve saborear la dolce vita em Roma, para seguir até Nápoles. Como se dizia antigamente, “ver Nápoles e depois morrer”. Não é caso para tanto, mas se sobreviver pode sempre aproveitar para uma breve incursão à magnífica costa amalfitana e visitar as ruínas de Pompeia, como Ingrid Bergman em Viagem a Itália, obra-prima do seu marido, Roberto Rosselini. 
Distância: 2714 km

Tempo de viagem: 28 horas

Custo estimado: 410 €

Percurso recomendado: Lisboa - Cádiz - Almeria - Barcelona - Marselha - Cannes - Génova - Roma – Nápoles


7. Porto-Inverness: Do vinho do Porto ao scotch whisky

Esta é uma grande rota para os apreciadores de prazeres dionisíacos e amantes da bebida, por isso já sabe, sorteie sempre quem guia antes de cada etapa. 
A viagem pode e deve começar com um Porto de Honra nas caves de Gaia, para depois seguir o curso do rio Douro e da região vinhateira, Património da Humanidade. Mantendo-se na peugada da Ribera del Duero, em Espanha vai poder atravessar a conhecida região de vinícola da Rioja, que merece paragem retemperadora em Logroño. 
Se ficou impressionado com a beleza das paisagens e a qualidade dos vinhos, espere até atravessar a fronteira com França e passar por Bordéus. Nenhuma região do mundo produz tantos vinhos de altíssima qualidade como a cidade girondina e as suas mais de 20 sub-regiões. Pode perder por ali um bom par de dias que não dará o tempo por mal empregue. Depois segue até Le Mans ou Caen e daí até a Calais, para atravessar o Túnel da Mancha, que é sempre uma grande experiência, antes de desembarcar na velha Albion. Londres é incontornável por todos os motivos e mais algum, o que dispensa mais explicações. Depois delicie-se com as magníficas paisagens e pequenas cidades do countryside inglês até Glasgow ou Edimburgo (a escolha é sua).
Aperte bem o cinto e o kilt e prepare-se para viajar por algumas das mais belas estradas da Europa e para travar conhecimento com o lendário humor escocês. Na sua cavalgada para as Highlands pode fazer metade do chamado “anel da Escócia”, que o leva pela costa este até Saint Andrews - cidade berço do golfe - ou às mais industriais Aberdeen ou Dundee. Finalmente, suba às terras altas e visite as mais famosas destilarias do mundo, provando o famoso whisky escocês. Se provar os suficientes estará mais apto a avistar a simpática Nessie, que é como os locais chamam o monstro do Loch Ness.
Finalmente, termine a sua longa peregrinação como começou, a beber um Macallan Rare Cask num acolhedor hotel da bela Inverness – recomendo o Inverlochy Castle, para poder beber que nem um rei.
Distância: 2890 km

Tempo de viagem: 31 horas

Custo estimado: 343 €

Percurso recomendado: Porto- Logroño - Bordéus - Caen -Londres - Leeds -

Edimburgo - Aberdeen – Inverness


8. Lisboa-Moscovo: A grande transeuropeia

Que tal repetir a inédita viagem do jornalista da RTP, Carlos Fino, que em 1982 uniu Lisboa a Moscovo por estrada, mostrando que era possível “furar” a cortina de ferro? 
Esta é sem dúvida uma das grandes odisseias motorizadas que um português pode fazer pela Europa. O jornalista Filipe Loureiro fê-la, por exemplo, ao volante de um velhinho e estimado Mini, por isso não há que ter medos, apenas muito tempo e alguns rublos, porque a viagem é longa - ida e volta são mais de 10 mil quilómetros. 
Pode escolher vários itinerários, mas se quer um sabor pleno do Centro da Europa e do grande Leste, a marcha deve ser feita até Bruxelas, e a partir daí atravessar a Alemanha em direcção à Polónia ao som de Wagner. Woody Allen dizia que quando escutava Wagner lhe apetecia invadir a Polónia, faça pacificamente o mesmo. E nesta marcha é obrigatório recordar o período mais negro da história da Europa e visitar os famigerados campos de concentração nazis - Auschwitz ou Dachau.
Na Polónia pode e deve parar em Varsóvia ou, melhor ainda, na espectacular cidade de Cracóvia, preparando-se para mergulhar no profundo Leste europeu. A travessia da Bielorrússia, com magníficas paisagens e longas estradas desertas, promete ser um dos pontos altos da sua viagem, antes de entrar em território russo e desfilar vitorioso, ao som de Stravinsky, na Praça Vermelha em Moscovo. Não faça como Napoleão e Hitler e deixe o Inverno passar para se aventurar nesta grande jornada pela Europa Central e do Leste. Se for no Inverno, pelo menos leve um dos lendários gorros à Carlos Fino.


Distância: 4582 km

Tempo de viagem: 51 horas

Custo estimado: 514 €

Percurso recomendado: Lisboa- Madrid- Barcelona- Paris- Bruxelas- Berlim- Varsóvia- Minsk- Moscovo



9. Cabo da Roca- Cabo Norte: Europa de ponta a ponta



Se os americanos têm a grande Panamericana que atravessa o continente, do Alasca à Terra do Fogo, os europeus têm a rota de cabo a cabo. O desafio aqui é unir por estrada o ponto mais ocidental da Europa continental - o cabo da Roca – ao cabo Norte, na Noruega. Do ponto mais ocidental ao ponto mais a norte do continente europeu. 

O primeiro português a fazê-lo por estrada foi o decano jornalista e viajante Vasco Calixto, já nos anos 1960. Há também quem o faça de moto ou até de bicicleta, como o ciclista galego Borja Delacasa, mas não sugiro nada tão radical. 


É uma extraordinária viagem, que pede tempo e um bom punhado de euros no bolso, já que o custo de vida vai subindo nas latitudes mais a norte. Recomendo que atravesse Espanha rapidamente (está aqui ao lado e pode ir lá num saltinho mais vezes) e que faça França pelo menos conhecido interior - por Lyon e Dijon (comprar um frasquinho da famosa mostarda). 



Desta vez, e só desta vez, pode flanquear Paris (os voos para lá estão baratinhos) e seguir pela Alsácia-Lorena em direcção a Dusseldorf e Hamburgo, vibrante cidade portuária alemã com uma das mais animadas vidas nocturnas da Europa. 

A partir daqui entra em território viking e é bom que esteja preparado para a longa maratona que se segue. Se a vida nocturna de Hamburgo não faz o seu género, pare em Copenhaga, a cidade mais feliz do mundo, e vá retribuir a visita que o escritor Hans Christian Andersen fez a Portugal. Em seguida, atravesse a fantástica ponte que liga a capital da Dinamarca a Malmo, já na Suécia. 


Agora tem duas alternativas para a etapa final, e qual delas a mais tentadora. A primeira é seguir por Gotemburgo até Oslo, capital da Noruega, e daí até Trondheim e depois Alta, ou então ir pela estrada costeira do golfo da Bótnia, de Estocolmo até Skelleftea, e a partir daí inverter para a fronteira com a Noruega em direcção à distante cidade de Alta, já bem perto do Nordkapp. Pode optar por um percurso à ida e outro à vinda e assim a escolha já não é tão terrível.

No cabo Norte vai ver o mais magnífico pôr do sol da sua vida, mas atenção que por estas paragens o sol dura pouco e não vai querer nunca regressar do Nordkapp de noite, porque, garanto-lhe, é uma experiência aterradora no Inverno, que só recomendo a pilotos experimentados com a coragem de um viking e pneus com pregos como deve ser.
Distância: 5404 km

Tempo de viagem: 64 horas

Custo estimado: 634 €

Percurso recomendado: Cabo da Roca - Madrid - Lyon - Hamburgo - Copenhaga - Estocolmo - Skelleftea - Alta - Nordkapp


10. Lisboa-Istambul: Expresso do Oriente

O expresso do Oriente, mas por estrada – este é o derradeiro desafio e a grande road trip que um português pode fazer na Europa. Ligar Lisboa a Istambul por estrada, uma odisseia que muitos tentaram e poucos conseguiram. Miguel Afonso Carranca, motard e aventureiro, fez a viagem numa velha moto e sobreviveu para a contar (já a moto…). 
Esta é uma viagem que exige tempo, férias grandes e à grande e sobretudo um bom espírito de aventura. Recomendo que faça a jornada até ao Sul de França e à fronteira com Itália o mais rapidamente possível, porque essa road trip pode fazê-la mais facilmente noutra altura. 
O Norte de Itália já é outra história. Pela sombra dos Apes vá direitinho até Milão para ver como param as modas. Depois, siga até Veneza, com paragem obrigatória em Pádua e na Verona de Romeu e Julieta. 
A partir de Veneza é quando a verdadeira aventura começa, a chamada aventura balcânica, que só por si merecia uma longa e exclusiva road trip
Pode optar pela investida mais radical (e demorada) seguindo junto à costa do Adriático e percorrer a bela faixa costeira de Montenegro e da Croácia até Tirana, a colorida capital da Albânia. Pelo caminho, paragem obrigatória na histórica e flagelada cidade de Dubrovnik que ainda ostenta as terríveis marcas da guerra com a Sérvia. 
Depois, atravessa a Macedónia até Tessalónica, no Norte da Grécia, para seguir pela costa do Mar Egeu até à antiga Constantinopla, porta do Oriente, a assombrosa cidade de Istambul. 
A alternativa a este percurso, mais directa, mas nem por isso menos encantadora, é a partir de Trieste seguir até uma das mais belas e romântica cidades dos balcãs, Lujbliana, capital da Eslovénia, e tomar a A3 que o vai levar até Belgrado, capital da Sérvia, que também merece paragem. 
A partir daqui é bom que a sua linguagem gestual esteja bem afinada, porque inglês ou francês é coisa que poucas pessoas falam. Atravessar a Sérvia e depois a Bulgária até Sofia vai deixá-lo a pensar que devia ter metido um período sabático lá no escritório, tamanha a diversidade que aguça a curiosidade, mas como a vida é feita de escolhas, vá escolhendo pelo caminho até chegar a Istambul e beber um chá num dos inúmeros terraços sobre o Bósforo. Do outro lado está a Ásia e um outro mundo de aventuras para fazer, para quem tem um endiabrado Marco Polo escondido dentro de si…
Distância: 4101 km

Tempo de viagem: 43 horas

Custo estimado: 542 €

Percurso recomendado: Lisboa-Barcelona-Marselha- Milão - Veneza - Trieste - Lubjlana - Belgrado - Sofia - Istambul


Fonte: Fugas

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Os 15 novos brunches de Lisboa e Porto

Há sugestões a partir 7€, à carta ou em buffet. Abriram todos nos últimos meses.
Há mais espaços em Lisboa e no Porto para experimentar a melhor refeição da semana. Sábados e domingos pode dormir até mais tarde que existem novos restaurantes e cafetarias que lhe servem o pequeno-almoço fora de horas. Em versão buffet ou à carta, há 15 novos sítios com brunch nas duas cidades. O melhor mesmo é o preço: a partir de 7€.

Um dos mais recentes espaços de Lisboa com brunch é o Querido Bistro. Abriu junto à Assembleia da República, em São Bento. Durante a semana serve pequeno-almoços idênticos aos de um hotel e o brunch é aos sábados, também em modo buffet.

No Porto, há menos opções — parece que o brunch não atraiu muito os responsáveis dos novos restaurantes da cidade. Ainda assim pode provar a refeição na Casa de Chá Mil Folhas.

Consulte o seguinte link e saiba mais: http://www.nit.pt/article/04-22-2016-os-15-novos-brunches-de-lisboa-e-porto


Fonte: New in Town (NIT)